Nota: Através da minha amiga Estela Rodrigues. Muito obrigada, Estela.
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terça-feira, 12 de abril de 2016
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Campanha "E se fosse eu ?! ..." - Uma situação inimaginável!! #esefosseeu
A propósito da Campanha "E se fosse eu ...?!" #esefosseeu
É verdade que é preciso pormo-nos na pele dos outros, calçar os seus sapatos ... mas há situações que são de uma tal violência, de uma tal desumanidade, que se tornam completamente insuportáveis.
Será que, enquanto adultos conseguimos imaginar uma situação que de tão insuportável que é, nos leva a tomar a decisão de correr o risco de, com os nossos filhos, crianças com menos de 10 anos, partir numa travessia em que estaremos todos (pais e filhos) sempre entre a vida e a morte? Uma travessia de que não temos qualquer garantia de ser bem sucedida?
Eu não consigo!! Diz o povo, que é sábio, há coisas que não conseguimos imaginar como reagiríamos, a não ser que passemos por elas: só na situação saberíamos exatamente qual a decisão que tomaríamos ou a reação que teríamos.
Quando ouvi pela primeira vez falar da campanha "E se fosse eu?!" pensei:
"Mas estamos a preparar-nos para uma situação de guerra? Estamos a preparar as nossas crianças e jovens para uma situação de guerra?! Como é que isto é possível?!?"
Em minha opinião, a solidariedade e a compaixão não se preparam, não se educam, assim.
A propósito desta situação que vivemos, da II Guerra Mundial e do Holocausto, escrevi com os meus alunos a seguinte carta: AQUI Estamos agora a enviá-la para vários Presidentes, a nível nacional e mundial (Convidamos, desde já, todos os interessados, a juntarem-se a nós.)
As situações de guerra, são situações de guerra!! De uma crueldade e desumanidade completamente inimagináveis. É aqui que não podemos deixar que se chegue!!
É na memória do que já foi a história e do que não queremos que volte a ser, que nos devemos situar.
Não tenho nada contra o colocarmo-nos no lugar do outro, do tentar perceber o que «o» levou a chegar até nós, mas tenho a consciência de que por mais que tente, que tenho jantar à mesa, um teto para onde volto todos os dias, trabalho, salário, família, amigos, filhas a são e salvo ... tudo o mais serão puras especulações.
A mochila da Joana de Vasconcelos poderia ser a minha, sei lá ... Imagino a minha com uma escova de dentes, uma muda de roupa, um telemóvel, um sumo, pão e chocolate - a minha mãe ensinou-me a nunca partir de viagem sem levar uma tablet de chocolate (sabe-se lá o que pode acontecer!)
Gosto mais de trabalhar com os meus alunos pelos seus sonhos, por aquilo que gostaríamos que fosse a Europa, pelas guerras que existem e que é preciso transformar em Paz. A realidade já é tão violenta e pesada que é no dia a dia que, reconhecendo-a, a precisamos de ir transformando - começando por cada um de nós, por aquilo que está ao nosso alcance, com o nosso sentido crítico, a nossa boa-vontade, por aquilo que cada um, com os que estão à sua volta, é capaz de fazer.
Esta é só uma "gota de água".
Margarida Belchior
(11/04/2016)
É verdade que é preciso pormo-nos na pele dos outros, calçar os seus sapatos ... mas há situações que são de uma tal violência, de uma tal desumanidade, que se tornam completamente insuportáveis.
Será que, enquanto adultos conseguimos imaginar uma situação que de tão insuportável que é, nos leva a tomar a decisão de correr o risco de, com os nossos filhos, crianças com menos de 10 anos, partir numa travessia em que estaremos todos (pais e filhos) sempre entre a vida e a morte? Uma travessia de que não temos qualquer garantia de ser bem sucedida?
Eu não consigo!! Diz o povo, que é sábio, há coisas que não conseguimos imaginar como reagiríamos, a não ser que passemos por elas: só na situação saberíamos exatamente qual a decisão que tomaríamos ou a reação que teríamos.
Quando ouvi pela primeira vez falar da campanha "E se fosse eu?!" pensei:
"Mas estamos a preparar-nos para uma situação de guerra? Estamos a preparar as nossas crianças e jovens para uma situação de guerra?! Como é que isto é possível?!?"
Em minha opinião, a solidariedade e a compaixão não se preparam, não se educam, assim.
A propósito desta situação que vivemos, da II Guerra Mundial e do Holocausto, escrevi com os meus alunos a seguinte carta: AQUI Estamos agora a enviá-la para vários Presidentes, a nível nacional e mundial (Convidamos, desde já, todos os interessados, a juntarem-se a nós.)
As situações de guerra, são situações de guerra!! De uma crueldade e desumanidade completamente inimagináveis. É aqui que não podemos deixar que se chegue!!
É na memória do que já foi a história e do que não queremos que volte a ser, que nos devemos situar.
Não tenho nada contra o colocarmo-nos no lugar do outro, do tentar perceber o que «o» levou a chegar até nós, mas tenho a consciência de que por mais que tente, que tenho jantar à mesa, um teto para onde volto todos os dias, trabalho, salário, família, amigos, filhas a são e salvo ... tudo o mais serão puras especulações.
A mochila da Joana de Vasconcelos poderia ser a minha, sei lá ... Imagino a minha com uma escova de dentes, uma muda de roupa, um telemóvel, um sumo, pão e chocolate - a minha mãe ensinou-me a nunca partir de viagem sem levar uma tablet de chocolate (sabe-se lá o que pode acontecer!)
Gosto mais de trabalhar com os meus alunos pelos seus sonhos, por aquilo que gostaríamos que fosse a Europa, pelas guerras que existem e que é preciso transformar em Paz. A realidade já é tão violenta e pesada que é no dia a dia que, reconhecendo-a, a precisamos de ir transformando - começando por cada um de nós, por aquilo que está ao nosso alcance, com o nosso sentido crítico, a nossa boa-vontade, por aquilo que cada um, com os que estão à sua volta, é capaz de fazer.
Esta é só uma "gota de água".
Margarida Belchior
(11/04/2016)
sexta-feira, 1 de abril de 2016
UNICEF: "Contos que não são de fadas"
Para saber mais: AQUI
In: http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2016/03/unicef-lanca-contos-que-nao-sao-de-fadas-sobre-criancas-refugiadas/#.Vv7PNpwrJBx
sábado, 19 de março de 2016
Carta a todos os Presidentes: «Todos nós gostaríamos de pedir a Paz e o Amor no mundo.»
Olá, Senhores Presidentes e
Senhor Primeiro Ministro
Todos nós gostaríamos de pedir a Paz e o Amor no mundo.
Nós soubemos que houve muita gente a sofrer na II Guerra
Mundial e ficámos muito impressionados com o que se passou nessa época tão
triste. Aprendemos que o Hitler e as suas polícias nazis perseguiram muitos
judeus, ciganos e homossexuais e muitos morreram em campos de concentração.
Temos estado a ler o «Diário de Anne Frank» e ficámos
muito tristes com tudo o que lhe aconteceu a ela e à sua família.
Foi a este propósito que começámos a pensar no que
acontece às pessoas em todas as guerras:
as que aconteceram ao longo dos anos e as que estão a acontecer agora.
Sabemos que é por isso que há tantos refugiados a virem
para a Europa. Tal como sucedeu na II Guerra Mundial em que houve muitos judeus
a fugirem da Europa para os Estados Unidos da América e para outras partes do
Mundo.
Por isso vos escrevemos esta carta a pedir Paz e Amor no
Mundo.
Vamos divulgá-la para que muitos mais meninos e meninas
peçam pela paz no mundo.
Mandamos muitos cumprimentos a todos,
A turma do 4.º D
Escola EB Leão de Arroios
(18/2/2016)
Nota: Estas são fotos da carta que escrevemos e do cartaz que fizemos. Vamos enviar para vários Presidentes: Presidente da República, Primeiro Ministro, Presidente da Junta de Freguesia, Diretora do Agrupamento, Presidente da ONU, Presidente da UE e Presidente do Parlamento Europeu.
Vamos criar uma grande corrente de cartas de crianças a pedir pela Paz no Mundo!!
Se quiserem juntar-se a nós, neste pedido pela Paz no Mundo, escrevam uma carta também a todos os Presidentes.
Gostávamos muito tamde receber uma cópia da sua carta e uma foto do trabalho que fizerem, para publicarmos aqui no nosso blogue.
Nota: Estas são fotos da carta que escrevemos e do cartaz que fizemos. Vamos enviar para vários Presidentes: Presidente da República, Primeiro Ministro, Presidente da Junta de Freguesia, Diretora do Agrupamento, Presidente da ONU, Presidente da UE e Presidente do Parlamento Europeu.
Vamos criar uma grande corrente de cartas de crianças a pedir pela Paz no Mundo!!
Se quiserem juntar-se a nós, neste pedido pela Paz no Mundo, escrevam uma carta também a todos os Presidentes.
Gostávamos muito tamde receber uma cópia da sua carta e uma foto do trabalho que fizerem, para publicarmos aqui no nosso blogue.
quinta-feira, 10 de março de 2016
terça-feira, 8 de março de 2016
domingo, 6 de março de 2016
sábado, 5 de março de 2016
O Holocausto, a História da Europa e Anne Frank
| Esconderijo de Anne Frank e da família. |
É costume na escola os disfarces para o desfile de Carnaval serem relativos ao tema da turma, por isso combinámos que cada um escolheria um país da Europa e se mascararia de acordo com um elemento desse país, à sua escolha. Escolheram os países, preencheram uma ficha sobre o país escolhido - aproveitámos para estudar a Europa, um dos ítens do programa de Estudo do Meio.
Numa das muitas conversas que tivemos na turma sobre as máscaras, um menino tinha escolhido a Alemanha e depois de conversar com um familiar, vinha com a ideia de se mascarar de Hitler. Apanhei um susto. Tomei de imediato uma posição muito clara, dizendo que isso é que não podia ser, que o Hitler e as pessoas que trabalhavam com ele tinham feito muito mal a muita gente, que aquilo não era de modo algum uma história para se brincar ao Carnaval. A curiosidade sobre o Holocausto e a II Guerra Mundial aumentaram, eles queriam mesmo saber o que tinha acontecido e por que razão eu dizia aquilo. Tivemos que ir pesquisar e voltámos a conversar sobre o assunto várias vezes.
Ainda nesse dia alguém disse que já tinha ouvido falar na história de Anne Frank e todos a quiserem conhecer. Falámos da perseguição aos judeus, aos ciganos e aos homossexuais, da deportação e dos campos de concentração, das câmaras de gás, das mortes em massa. Falámos de Aristides de Sousa Mendes e de como ele tinha ajudado tantos judeus a fugir para os Estados Unidos através de Portugal. Falámos das guerras na atualidade e de como os refugiados que chegam atualmente à Europa são famílias inteiras com crianças de todas as idades que também vêm a fugir das guerras nos seus países...
Na vez seguinte de irmos à biblioteca da Escola (onde vamos todas as semanas), logo um deles descobriu, no meio de todos os outros livros, uma adaptação do diário de Anne Frank.
Agora temos uma lista de espera dos interessados nesse livro e estamos a escrever uma carta para diversas entidades nacionais e mundiais a pedir que façam tudo o que estiver ao seu alcance, para que não haja guerras, para que haja Paz no mundo.
Os meus alunos têm entre 9 e 10 anos, estão no 4.º ano de escolaridade, mas estão sempre a surpreender-me com a sua curiosidade, com o seu interesse e capacidade de iniciativa.
Aqui fica um link para a página web do Museu de Anne Frank: http://www.annefrank.org/pt/Anne-Frank/O-resumo-da-historia/.
[A Carta que escrevemos a todos os Presidentes a pedir a Paz e o Amor no Mundo: AQUI. Foi despois destas conversas que surgiu a ideia desta carta. ]
(Fotografia do site: http://www.annefrank.org/pt/Anne-Frank/O-resumo-da-historia/
sábado, 30 de janeiro de 2016
Dia Escolar pela Não violência e pela Paz - 30 de janeiro
Celebra-se hoje, em todo o mundo, o dia Dia Escolar da Paz e da Não Violência.Aqui fica uma história, real, que pode ser visualizada em sala de aula sobre o tema#emrc #nãoviolencia #paz #educação #valores
Publicado por Educris em Sábado, 30 de janeiro de 2016
Celebra-se hoje o dia da morte de Mahatma Gandhi.
Mais ligações sobre este dia e esta temática: http://sites.google.com/site/educacaopelapaz/novidades25/30-de-janeiro---dia-escolar
Mais ligações sobre este dia e esta temática: http://sites.google.com/site/educacaopelapaz/novidades25/30-de-janeiro---dia-escolar
domingo, 21 de junho de 2015
segunda-feira, 8 de junho de 2015
«Um sopro de esperança ...»
Um sopro de esperança contra a ignorância e a favor da informação cada vez mais democrática.
Posted by Silvio H. Imafuku on Quinta-feira, 14 de Maio de 2015
domingo, 31 de maio de 2015
domingo, 24 de maio de 2015
...adultos que se comportam como bebés ...
Pais competentes, adultos abebezados e um desenvolvimento desadequado da auto-estima ...
... leia este interessante artigo AQUI.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
sábado, 28 de março de 2015
XXIX Encontro Galego-Português de Educadoras/es pela Paz
29º encontro Galego-Português de Educadoras/es pela Paz - Convivência e Bem Estar para o século XXI: Experiências e Recursos
Para saber mais:
www.nova-escola-galega.org
Para saber mais:
www.nova-escola-galega.org
sexta-feira, 27 de março de 2015
Yoga na Escola
No Canadá:
«Au Canada, de nombreux établissements ont fait entrer la « pleine conscience » à l'école. Cette technique permettrait d'améliorer le bien-être et les performances scolaires des élèves.»
segunda-feira, 23 de março de 2015
sexta-feira, 6 de março de 2015
sábado, 28 de fevereiro de 2015
«Pequenos ditadores» (PÚBLICO, 9/4/2012)
Por Paula Torres de Carvalho
Esta temática é cada vez mais pertinente e atual, nunca é de mais voltarmos a ela. Aproveitando um post no Facebook, aqui deixo este artigo com que concordo, já de 2012, mas de uma enorme atualidade. Está em causa a necessidade de limites que, como educadora/professora, aprendi exemplarmente com João dos Santos ...
«Aos consultórios médicos chegam cada vez mais "pequenos ditadores" que os adultos já não conseguem controlar. São filhos de pais que têm medo de ser tiranos. Mas as crianças sem limites não são livres, defendem especialistas
"Não vou". "Não quero". "Só faço se quiser". O problema não é uma criança dizer isto. O problema é quando ela faz precisamente o que diz e os adultos já não têm o poder de a contrariar. Não é uma questão portuguesa mas da generalidade das sociedades ditas desenvolvidas. Os consultórios dos pedopsiquiatras e dos psicólogos estão a encher-se de meninos-rei, pequenos ditadores, crianças sem limites, algumas a caminho da delinquência apresentadas por pais aflitos e referenciadas por professores fartos.
Mais do que um problema, a omnipotência destas crianças é um sinal. Tem a ver com a falta de limites que resulta de uma organização social desregrada, sem tempo para o investimento emocional na criança.
A perspectiva da necessidade de construir "uma cultura da diferença de tempos" defendida pelo filósofo e psicanalista francês Raymond Bénévenque, para quem "é no mundo dos adultos que se deve lutar por um outro futuro das crianças", encontra-se nos discursos do médico pedopsiquiatra Pedro Strecht e das psicanalistas Carmo Sousa Lima e Maria Teresa Sá. Por trás do problema das crianças sem limites, identificam a falta de tempo, a velocidade que muitas vezes não deixa pensar. E a incapacidade de pensar dá lugar à depressão que tem como uma das manifestações a chamada omnipotência infantil.
Em educação tem de haver tempo. "Para haver qualidade, tem que haver quantidade e disponibilidade", considera Pedro Strecht. "Os pais passam muitas horas a trabalhar, muitas crianças chegam a estar 10, 11 horas em jardins de infância e na escola. O reencontro no final do dia acontece numa situação de grande vulnerabilidade emocional com crianças cansadas, com birras, com pouco tempo para cumprir as rotinas e com pais extremamente cansados do trabalho, portanto num ponto de desencontro, de choque e de conflito. Pela falta de tempo e pela culpabilidade dos pais em relação a isso, a permissividade aumentou e aumentou aquilo que vários autores chamam os objectos compensatórios, no que respeita tanto a objectos como à própria relação". A delimitação de regras fica para trás e o que se observa muito hoje - diz Pedro Strecht - é que "temos cada vez mais miúdos que num registo familiar não têm estas balizas e que depois transportam para outros registos, a escola, a sociedade" toda a sua inquietação.
A dificuldade de impor e de aceitar limites paga-se "caro vida fora", adverte Maria Teresa Sá. "Os pais têm medo do poder. Como que sofrem de um excesso de democracia [entre aspas]. Há uma perversão, como na democracia. Muitos pais têm dificuldades com os limites porque têm medo de ser tirânicos. Têm medo de ser como os pais, como os avós ou como o modelo que eles intuíram da sociedade antes deles", diz Carmo Sousa Lima.
E os exemplos sucedem-se: na escola, António, dez anos. A professora anuncia: "Hoje é teste". Ele cruza os braços: "Não faço". E não faz.
Em casa: Rita, nove anos, filha única. A mãe diz-lhe para desligar o computador e ir para a mesa jantar. Ela continua imóvel à frente do ecrã. A mãe repete a ordem. A miúda não se mexe. Já irritada, a mãe aproxima-se e desliga o computador. Rita protesta, grita e volta a ligar o computador. Empurra a mãe, não vai jantar.
No consultório médico, Pedro, oito anos, para o pedopsiquiatra: "Olha, já parti portas, um dia se tu quiseres, também posso partir esta do teu consultório... Se quiseres ver..."
O número de casos "é muito significativo e, sobretudo em relação a anos atrás, é muito mais intenso", diz Pedro Strecht.
A importância da autoridade
O que faltou ou o que tiveram a mais estas crianças para se tornarem assim? Strecht recua até aos primeiros tempos da vida da criança e da relação precoce com os pais. Refere o médico psicanalista inglês Donald Winicott e a sua ideia de "holding" para explicar a necessidade do envolvimento da criança "num círculo de amor e de força" juntando o afecto e o investimento emocional à fixação de limites. "Na própria relação com o bebé, é isso que se faz", explica o pedopsiquiatra. "Quando um bebé está inquieto, a pessoa pega-o ao colo, envolve-o fisicamente. A modelação emocional é feita também à custa de um "holding físico". O que acontece depois é que os miúdos vão integrando progressivamente e de forma cada vez mais autónoma o holding emocional sem ser preciso tanto o holding físico, de uma forma cada vez mais auto-regulada". Quando isso não sucede pode querer dizer "que não houve esse holding físico de delimitação, de força, no "sentido de contenção emocional e verbal."
A explicação para as manifestações de tirania por parte destas crianças passa então pela pergunta acerca do que tiveram elas a mais. Como nota a psicanalista Carmo Sousa Lima, "o excesso de sim perturbou a capacidade das crianças tolerarem o não", mas "é o não que faz valorizar o sim e não o contrário". Depois do período de "maravilha" e de "encantamento" que rodeia o bebé nos primeiros tempos, os pais devem educar os filhos para a realidade, defende. "Há aspectos da realidade de que os pais não podem proteger a criança sob pena de esta enlouquecer ou cair nessa omnipotência que agora é tão corrente aparecer nos consultórios". Há pais, mães que "são de uma ansiedade tal que a criança não pode sair de dentro delas e continua a viver numa espécie de uma bolha protectora, mas que a vai destruindo em termos de autonomia e de identidade", diz, sublinhando que "são os limites que protegem a criança".
Ao contrário do que muitos adultos ainda pensam, "uma criança sem limites não é uma criança livre", diz Teresa Sá, psicanalista e professora na Escola Superior de Educação de Santarém. Que se desfaça a confusão: "Uma criança sem limites é escrava das suas pulsões e não é feliz, vive angustiada". Entregue a si própria "não tem outro guia senão a satisfação imediata". Se quer uma coisa, agarra-a, se não está contente, bate. E se, a curto prazo, isto até pode ser agradável, "paga-se caro, vida fora". Teresa Sá explica como. "Constitui-se como um verdadeiro sofrimento psíquico, visto que o sujeito se encontra na impossibilidade de se frustrar minimamente, de dizer não a si próprio, e não somente de dizer não ao educador". O que correntemente se designa por omnipotência, "não é unicamente a vontade de dominar os outros e de não levar em conta senão o seu próprio desejo, mas, de igual modo, a impotência e a impossibilidade de se dominar a si mesmo, de se limitar", esclarece. "Parecendo dono do mundo, o sujeito está na verdade desmunido, pois não se sente dono do seu próprio mundo interno".
Daí, a importância da autoridade na educação. Carmo Sousa Lima fala antes do exercício de um "bom poder". A capacidade de lidar com os limites "é um poder muito bom, indispensável", diz. "Todos temos uma margem de poder que está em tudo. Podemos falar, comer, amar, mas há pessoas que não podem. Há patologias que não deixam. Por isso, a palavra o poder em si própria é uma palavra muito boa, com um sentido muito profundo". O bom poder "é o poder de dizer "não" na justa medida das coisas que são razoáveis dizer que não. E de dizer que sim naquilo que ajuda a criar uma melhor pessoa".
É a autoridade "exercida pelos educadores (pais, professores, instituição) que permite à criança e ao jovem integrar os interditos fundamentais ligados à socialização", salienta Maria Teresa Sá. "Um adulto que permite tudo não é, para a criança, um adulto que lhe dê segurança".As crianças reclamam, aliás, esses limites quando levam os adultos ao limite (a "passarem-se da cabeça e agirem"). É "como se a criança estivesse a levá-los a colocarem limites". E quando isso não se verifica, "pode acontecer que seja a própria criança ou jovem a colocar o limite, em escalada, geralmente com o corpo, caindo, magoando-se, pondo-se em perigo". Sem autoridade "a criança sentir-se-á insegura, deixada só nas perigosas marés da sua impulsividade e destrutividade, abandonada, negligenciada", nota Maria Teresa Sá.
Pedro Strecht alerta, contudo, para o facto paradoxal de, a par da permissividade, existir um regresso ao autoritarismo" e para a necessidade de isso não acontecer. Face às ideias de que, para enfrentar os problemas da educação é preciso uma "educação espartana" e que "antigamente é que era bom", Strecht diz que "não há nada mais falso". "Sabemos que no campo da saúde mental e da infância, isso é absolutamente mentira". E lembra: "Se hoje as escolas estão cheias de problemas, em 1974 a escolaridade obrigatória limitava-se à quarta classe. E se formos ver, há cem anos não havia meninas nas escolas e a maioria da população escolar andava descalça e isso é que era um problema".
Tem de haver autoridade, sim, mas uma autoridade "protectora", defende o pedopsiquiatra. Que proteja as crianças "dos seus próprios movimentos mais primitivos, mais agressivos", nota Carmo Sousa Lima. Uma autoridade com afecto como defende o psiquiatra Daniel Sampaio. Para promover o desenvolvimento e a autonomia. E "passar de uma navegação à costa para uma navegação à distância", sem a perder de vista, exemplifica Pedro Strecht, deixando claro que se não for feito na infância, este trabalho se tornará muito mais difícil na adolescência.
Esta temática é cada vez mais pertinente e atual, nunca é de mais voltarmos a ela. Aproveitando um post no Facebook, aqui deixo este artigo com que concordo, já de 2012, mas de uma enorme atualidade. Está em causa a necessidade de limites que, como educadora/professora, aprendi exemplarmente com João dos Santos ...
«Aos consultórios médicos chegam cada vez mais "pequenos ditadores" que os adultos já não conseguem controlar. São filhos de pais que têm medo de ser tiranos. Mas as crianças sem limites não são livres, defendem especialistas
"Não vou". "Não quero". "Só faço se quiser". O problema não é uma criança dizer isto. O problema é quando ela faz precisamente o que diz e os adultos já não têm o poder de a contrariar. Não é uma questão portuguesa mas da generalidade das sociedades ditas desenvolvidas. Os consultórios dos pedopsiquiatras e dos psicólogos estão a encher-se de meninos-rei, pequenos ditadores, crianças sem limites, algumas a caminho da delinquência apresentadas por pais aflitos e referenciadas por professores fartos.
Mais do que um problema, a omnipotência destas crianças é um sinal. Tem a ver com a falta de limites que resulta de uma organização social desregrada, sem tempo para o investimento emocional na criança.
A perspectiva da necessidade de construir "uma cultura da diferença de tempos" defendida pelo filósofo e psicanalista francês Raymond Bénévenque, para quem "é no mundo dos adultos que se deve lutar por um outro futuro das crianças", encontra-se nos discursos do médico pedopsiquiatra Pedro Strecht e das psicanalistas Carmo Sousa Lima e Maria Teresa Sá. Por trás do problema das crianças sem limites, identificam a falta de tempo, a velocidade que muitas vezes não deixa pensar. E a incapacidade de pensar dá lugar à depressão que tem como uma das manifestações a chamada omnipotência infantil.
Em educação tem de haver tempo. "Para haver qualidade, tem que haver quantidade e disponibilidade", considera Pedro Strecht. "Os pais passam muitas horas a trabalhar, muitas crianças chegam a estar 10, 11 horas em jardins de infância e na escola. O reencontro no final do dia acontece numa situação de grande vulnerabilidade emocional com crianças cansadas, com birras, com pouco tempo para cumprir as rotinas e com pais extremamente cansados do trabalho, portanto num ponto de desencontro, de choque e de conflito. Pela falta de tempo e pela culpabilidade dos pais em relação a isso, a permissividade aumentou e aumentou aquilo que vários autores chamam os objectos compensatórios, no que respeita tanto a objectos como à própria relação". A delimitação de regras fica para trás e o que se observa muito hoje - diz Pedro Strecht - é que "temos cada vez mais miúdos que num registo familiar não têm estas balizas e que depois transportam para outros registos, a escola, a sociedade" toda a sua inquietação.
A dificuldade de impor e de aceitar limites paga-se "caro vida fora", adverte Maria Teresa Sá. "Os pais têm medo do poder. Como que sofrem de um excesso de democracia [entre aspas]. Há uma perversão, como na democracia. Muitos pais têm dificuldades com os limites porque têm medo de ser tirânicos. Têm medo de ser como os pais, como os avós ou como o modelo que eles intuíram da sociedade antes deles", diz Carmo Sousa Lima.
E os exemplos sucedem-se: na escola, António, dez anos. A professora anuncia: "Hoje é teste". Ele cruza os braços: "Não faço". E não faz.
Em casa: Rita, nove anos, filha única. A mãe diz-lhe para desligar o computador e ir para a mesa jantar. Ela continua imóvel à frente do ecrã. A mãe repete a ordem. A miúda não se mexe. Já irritada, a mãe aproxima-se e desliga o computador. Rita protesta, grita e volta a ligar o computador. Empurra a mãe, não vai jantar.
No consultório médico, Pedro, oito anos, para o pedopsiquiatra: "Olha, já parti portas, um dia se tu quiseres, também posso partir esta do teu consultório... Se quiseres ver..."
O número de casos "é muito significativo e, sobretudo em relação a anos atrás, é muito mais intenso", diz Pedro Strecht.
A importância da autoridade
O que faltou ou o que tiveram a mais estas crianças para se tornarem assim? Strecht recua até aos primeiros tempos da vida da criança e da relação precoce com os pais. Refere o médico psicanalista inglês Donald Winicott e a sua ideia de "holding" para explicar a necessidade do envolvimento da criança "num círculo de amor e de força" juntando o afecto e o investimento emocional à fixação de limites. "Na própria relação com o bebé, é isso que se faz", explica o pedopsiquiatra. "Quando um bebé está inquieto, a pessoa pega-o ao colo, envolve-o fisicamente. A modelação emocional é feita também à custa de um "holding físico". O que acontece depois é que os miúdos vão integrando progressivamente e de forma cada vez mais autónoma o holding emocional sem ser preciso tanto o holding físico, de uma forma cada vez mais auto-regulada". Quando isso não sucede pode querer dizer "que não houve esse holding físico de delimitação, de força, no "sentido de contenção emocional e verbal."
A explicação para as manifestações de tirania por parte destas crianças passa então pela pergunta acerca do que tiveram elas a mais. Como nota a psicanalista Carmo Sousa Lima, "o excesso de sim perturbou a capacidade das crianças tolerarem o não", mas "é o não que faz valorizar o sim e não o contrário". Depois do período de "maravilha" e de "encantamento" que rodeia o bebé nos primeiros tempos, os pais devem educar os filhos para a realidade, defende. "Há aspectos da realidade de que os pais não podem proteger a criança sob pena de esta enlouquecer ou cair nessa omnipotência que agora é tão corrente aparecer nos consultórios". Há pais, mães que "são de uma ansiedade tal que a criança não pode sair de dentro delas e continua a viver numa espécie de uma bolha protectora, mas que a vai destruindo em termos de autonomia e de identidade", diz, sublinhando que "são os limites que protegem a criança".
Ao contrário do que muitos adultos ainda pensam, "uma criança sem limites não é uma criança livre", diz Teresa Sá, psicanalista e professora na Escola Superior de Educação de Santarém. Que se desfaça a confusão: "Uma criança sem limites é escrava das suas pulsões e não é feliz, vive angustiada". Entregue a si própria "não tem outro guia senão a satisfação imediata". Se quer uma coisa, agarra-a, se não está contente, bate. E se, a curto prazo, isto até pode ser agradável, "paga-se caro, vida fora". Teresa Sá explica como. "Constitui-se como um verdadeiro sofrimento psíquico, visto que o sujeito se encontra na impossibilidade de se frustrar minimamente, de dizer não a si próprio, e não somente de dizer não ao educador". O que correntemente se designa por omnipotência, "não é unicamente a vontade de dominar os outros e de não levar em conta senão o seu próprio desejo, mas, de igual modo, a impotência e a impossibilidade de se dominar a si mesmo, de se limitar", esclarece. "Parecendo dono do mundo, o sujeito está na verdade desmunido, pois não se sente dono do seu próprio mundo interno".
Daí, a importância da autoridade na educação. Carmo Sousa Lima fala antes do exercício de um "bom poder". A capacidade de lidar com os limites "é um poder muito bom, indispensável", diz. "Todos temos uma margem de poder que está em tudo. Podemos falar, comer, amar, mas há pessoas que não podem. Há patologias que não deixam. Por isso, a palavra o poder em si própria é uma palavra muito boa, com um sentido muito profundo". O bom poder "é o poder de dizer "não" na justa medida das coisas que são razoáveis dizer que não. E de dizer que sim naquilo que ajuda a criar uma melhor pessoa".
É a autoridade "exercida pelos educadores (pais, professores, instituição) que permite à criança e ao jovem integrar os interditos fundamentais ligados à socialização", salienta Maria Teresa Sá. "Um adulto que permite tudo não é, para a criança, um adulto que lhe dê segurança".As crianças reclamam, aliás, esses limites quando levam os adultos ao limite (a "passarem-se da cabeça e agirem"). É "como se a criança estivesse a levá-los a colocarem limites". E quando isso não se verifica, "pode acontecer que seja a própria criança ou jovem a colocar o limite, em escalada, geralmente com o corpo, caindo, magoando-se, pondo-se em perigo". Sem autoridade "a criança sentir-se-á insegura, deixada só nas perigosas marés da sua impulsividade e destrutividade, abandonada, negligenciada", nota Maria Teresa Sá.
Pedro Strecht alerta, contudo, para o facto paradoxal de, a par da permissividade, existir um regresso ao autoritarismo" e para a necessidade de isso não acontecer. Face às ideias de que, para enfrentar os problemas da educação é preciso uma "educação espartana" e que "antigamente é que era bom", Strecht diz que "não há nada mais falso". "Sabemos que no campo da saúde mental e da infância, isso é absolutamente mentira". E lembra: "Se hoje as escolas estão cheias de problemas, em 1974 a escolaridade obrigatória limitava-se à quarta classe. E se formos ver, há cem anos não havia meninas nas escolas e a maioria da população escolar andava descalça e isso é que era um problema".
Tem de haver autoridade, sim, mas uma autoridade "protectora", defende o pedopsiquiatra. Que proteja as crianças "dos seus próprios movimentos mais primitivos, mais agressivos", nota Carmo Sousa Lima. Uma autoridade com afecto como defende o psiquiatra Daniel Sampaio. Para promover o desenvolvimento e a autonomia. E "passar de uma navegação à costa para uma navegação à distância", sem a perder de vista, exemplifica Pedro Strecht, deixando claro que se não for feito na infância, este trabalho se tornará muito mais difícil na adolescência.
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