quinta-feira, 13 de maio de 2010

Que "aromas" transportamos connosco?

Chegar a uma sala de aula e ver os alunos a fazer uma ficha de interpretação sobre "A Menina do Mar" de Sofia, traz-me à memória as inúmeras tardes passadas em casa dos meus avós a ouvir esta história narrada pela Eunice Muñoz. Já tinha 5 anos e quase sabia toda a história de cor. Ao ler partes da história os cheiros de então vieram agarrar-se novamente ao meu corpo, como que se impregnando em mim. Hoje são as fichas de interpretação, os vários exemplares do livro nas mesas da sala de aula, os alunos a completarem a ficha, a procurarem no livro as frases para as quais remete a ficha. Interrogo-me em silêncio sobre que cheiros ficarão agarrado aos seus corpos ... Estes pensamentos são interrompidos pela professora que aproveita para me mostrar os magníficos desenhos que eles têm feito sobre as diversas partes da história ... lindos desenhos repletos de cor e inesquecíveis aromas! … tal como os diversos aromas que atravessam as nossas vidas, sobre os quais aproveitamos para trocar algumas “dicas” entre mulheres professoras.
Depois do almoço entro numa sala em que os “cheiros” recordados são os ciclos das estações do ano: o Inverno, a Primavera, o Verão e o Outono. As figuras do livro de Estudo do Meio são o pretexto para a conversa sobre os estados do tempo em cada uma dessas épocas do ano que se repetem, com aromas renovados, a cada ano. Segue-se um desenho numa folha A4 dos quatro aromas cíclicos que os alunos já tão bem conhecem.
Na sala seguinte , quando entro sento-me logo na roda para me integrar num jogo sobre nomes de animais da quinta que tivessem visto no Jardim Zoológico. Há uma almofada que vai atravessando a roda e quem a recebe, antes de a atirar para o companheiro seguinte tem que dizer um nome de animal da quinta. Apesar de se tratar de gente bem pequena, as regras são muito bem seguidas e respeitadas. Passamos depois aos animais selvagens. São imensos os animais que conhecem e igualmente imensas as vezes que a almofada vai atravessando a roda. Todos participam. Passamos depois ao “jogo do segredo”: e a concentração para perceberem bem o que diz o vizinho? Imensa. A frase chega quase sempre igual ao fim. Segue-se para terminar o “jogo da corrente eléctrica”: tudo muito concentrado de novo e quem está no meio tem mesmo dificuldade em descobrir onde vai a corrente. Que experiência maravilhosa foi esta oportunidade.
Tudo isto aconteceu no dia 6/05/2010. O resto fica para a próxima visita.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Modelo Pedagógico do MEM - Sessão com professores, alunos e pais


Na semana passada aconteceu finalmente num dos Agrupamentos com que estou a trabalhar a sessão que tinham pedido desde o início do ano sobre o modelo pedagógico do Movimento da Escola Moderna (MEM). Fiz a preparação dessa sessão com a minha amiga que se identifica com esse modelo de trabalho pedagógico e que lá trabalha. Acordámos que eu falaria mais sobre a história e os antecedentes do MEM e ela explicitaria o trabalho que tem feito com a sua turma, a partir da organização espacial da sala de aula e da forma como organiza o tempo. Depois deste acordo estabelecido e já à entrada para o carro, diz-me ela: «E se eu pedisse aos meus alunos para serem eles a explicar como é que o espaço está organizado?». Achei logo uma excelente ideia, mas estávamos a dois dias da sessão. Também ficou combinado de imediato que não haveria problema quanto à sequência da sessão: caso os alunos tivessem disponibilidade para estarem presentes, o melhor seria mudar a ordem da apresentação, primeiro eles explicariam a forma como se organizam e trabalham e depois então falaríamos da história e origens do MEM.

Quando no próprio dia cheguei à Escola era grande a excitação: os alunos iam estar presentes, as mães também queriam assistir. Tínhamos preparado bolinhos e sumos para que a sessão fosse mais familiar e informal. Os colegas professores começaram a chegar. Faltava só a professora, a minha amiga, para dar início à reunião. Ela chegou e demos início à tão desejada sessão.

A professora começou por explicitar como iria decorrer a sessão e os seus alunos começaram logo de imediato a explicar como organizavam o tempo e o que faziam em cada um dos momentos semanais dedicado às respectivas actividades. Passaram depois a explicar a forma como estava organizada a sala. Os alunos do 1.º ano faziam questão de ir lendo tudo o que iam encontrando - queriam mesmo mostrar que já sabem ler tudo. Os alunos do 4.º ano faziam de "ponto" para os do 1º e explicaram também como, por exemplo, a professora tinha visto com eles quais os temas que tinham ainda que trabalhar nos projectos para aprenderem e conhecerem todas as temáticas que estão previstas no programa. Tudo decorreu com uma grande naturalidade e à vontade.

Chegara finalmente a parte final e mais teórica sobre o MEM. Apesar de a minha amiga ter dito que se os pais quisessem sair que o poderiam fazer, todos (ou melhor todas, porque eram sobretudo mães) quiseram ficar. E aí fiquei um pouco aflita, porque uma coisa é falar para professores, outra coisa é falar para pais e meninos. Lá me desembaracei o melhor que consegui, tentando traduzir as ideias essenciais numa linguagem que todos percebessem. De modo completamente espontâneo e imprevisto, no final houve algumas mães que quiseram dar o seu testemunho sobre os percursos de aprendizagem dos seus filhos: «Este meu filho tem muito mais gosto pela Escola do que a outra minha filha que se fartava de fazer linhas de "t" e de "f". Aqui não, parece que tudo tem mais sentido para eles. Eles aprendem com gosto.» «Eu estou muito contente porque os nossos filhos já tinham estado numa escola da Misericórdia que tem a mesma forma de trabalhar e assim eles continuam a aprender segundo a mesma metodologia. Não têm tido dificuldades absolutamente nenhumas, aprendem, gostam de aprender e andam contentes. É pena é que não possam continuar para o próximo ano.» «O meu filho é um desses meninos e eu também estou muito contente.»

Com os colegas, depois dos alunos e de as mães terem saído, as questões já foram de outra natureza: «A mim faz-me muita confusão que eles não aprendam pelo "p" + "a" = "pá" ... mas afinal como é que eles aprendem a ler?» «Quando é que lhes ensinam as letras?» «Eles [alunos] de facto dominam isto tudo.»

Algumas das respostas:
- eles começam logo a ler, mesmo que seja de cor, e a familiarizar-se com a sílabas e as letras - o abecedário está exposto na sala desde o início do ano; fazem listas de palavras que têm a mesma sílaba e isso vai sendo sempre trabalhado; o manancial de palavras que eles conhecem vai sempre aumentando e começam logo a fazer tentativas de escrita;
- construímos assim o livro de leitura com eles a partir as novidades que nos vão contando no «Ler, contar e mostrar»;
- no MEM as pessoas não começam a mudar a sua forma de trabalhar sozinhas, devem ser acompanhadas e devem estar integradas em grupos de auto-formação, porque esta forma de trabalhar significa uma grande mudança;
- talvez para o ano se possa constituir aqui , neste concelho, um grupo para fazer uma Oficina de Iniciação ao Modelo do Movimento da Escola Moderna.

Para saber mais sobre o Movimento da Escola Moderna: http://www.movimentoescolamoderna.pt/;
o MEM no 1º CEB - http://www.movimentoescolamoderna.pt/documentos_ilustrativos/1ciclo/indice-1ciclo.htm

terça-feira, 4 de maio de 2010

Trabalhar com o "coração" ...

Ontem tive a sorte de ir visitar mais uma amiga minha. Quando nos juntamos fico sempre surpreendida com ela.

Ela ouviu falar da minha intenção de projecto, em situação académica, quando fiz a apresentação pública do meu projecto e o defendi perante o júri de professores universitários. Perante dúvidas sobre a sua implementação e sobre a indefinição de estratégias que então tinha sobre o seu desenvolvimento ela, mesmo naquele contexto, manifestou logo o seu interesse em colaborar e em associar-se.

Para essa fase do meu trabalho, a minha maior preocupação tinha mesmo sido a sua fundamentação teórica, uma vez que a questão da implementação, não se me apresentava como uma dificuldade, mas como um conjunto de processos a serem reflectidos e levados à prática. Para mim é também importante perceber a ressonância que este tipo de trabalho tem junto dos professores.

Uma das coisas que queria acertar com ela eram os relatos que ela me tem enviado e, como são da sua autoria, eu não queria publicar sem estar segura do que estava a fazer. A sua forma de escrita distingue-se completamente da forma de escrita dos restantes participantes neste projecto o que para mim tem sido um desafio [uma fonte de questionamento] e por isso merece todo o meu cuidado - http://pazvalorescidadania.webnode.com/news/relato%202%20%C2%ABas%20ideias%20s%C3%A3o%20como%20as%20cerejas%20%E2%80%A6%C2%BB/
Ela está sempre a lembrar-me: «Neste projecto não consigo estar de outra forma, escrevo com o coração. Foi com o coração que aderi desde a primeira hora que te ouvi falar nele.»

Ao conversar ontem com ela, voltou a recordar-me: «O meu entusiasmo com o teu projecto foi muito grande desde o início, porque a questão dos valores foi sempre muito importante para mim. A primeira vez que ouvi falar nela foi ao Dr. Manuel Patrício, da Escola Cultural. Mas este tipo de projectos não se pode impor: as pessoas ou aderem livremente, ou não. Foi por isso que fui conversado com as colegas e parece que tudo foi acontecendo de uma forma tão natural. Parece até que elas já estavam a fazer muitas coisas que têm a ver com este projecto.»

Parece que apenas vamos tecendo esta rede de contactos ... houve mesmo quem descobrisse uma história de uma teia de aranha e de várias teias que se vão ligando entre si.

Aqui podem encontrar todo este trabalho de que vos falo ... «Paz, valores e cidadania»: http://pazvalorescidadania.webnode.com/

Este tem sido um entusiasmo contagiante e muito estimulante para o desenvolvimento do meu trabalho. Um agradecimento muito especial, para ti, minha Amiga!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Salas de aula, trabalho e vontade de aprender

Nestas minhas visitas pelas Escolas há algo que é muito contrastante com o ambiente depressivo de crise que se ouve nos noticiários dos vários canais de televisão: em todas das salas de aula em que tenho entrado reina uma vontade de aprender e de conhecer coisas novas, uma enorme vontade de fazer bem feito, no meio de boa disposição e alegria. Só assim se consegue aprender com gosto e satisfação. Ainda a semana passada comecei por entrar numa sala de aula, de uma turma que tem alunos do 1º e do 4º ano, alunos e professora planificavam a semana com base na sua agenda semanal habitual, avaliaram e distribuíram tarefas. Alguns dos alunos vieram agradecer os meus comentários no blog, dizer que tinham ficado muito contentes quando a professora lhos leu. Numa outra turma as mesas estavam reunidas no centro da sala, todos os alunos estavam sentados à volta e tudo estava preparado para começarem as planeadas experiência com água sobre a flutuação de objectos. Cada um tinha a sua folha de registo onde podiam registar a sua previsão do que iria acontecer com cada um dos objectos, o que realmente tinha acontecido e a conclusão. Todos iam registando o que observavam e estavam curiosos em perceber o que acontecia: seria o peso dos objectos que os faria flutuar ou afundar? ...falámos dos grande barcos cargueiros em metal e até falámos no Arquimedes. A curiosidade ficou aguçada para as investigações dos alunos com a professora prosseguirem. Esta era uma turma de 2º ano de escolaridade.
Passei depois a uma turma de 1º ano de escolaridade. Quando entrei na sala de aula os alunos e a professora falavam sobre a dezena e contagens. Estavam a começar a fazer os exercícios do livro de Matemática e claro que fui logo mobilizada para ajudar também a resolver os exercícios: todos queriam resolver os exercícios e ter a certeza que os estavam a resolver da melhor forma.
Fui depois a uma turma do 2º ano. Estavam a acabar de ler o livro "Coração de Mãe" (a professora tinha o computador dela ligado e projectava o livro com o projector de vídeo no écrã) e a começar a organizar o presente para o Dia da Mãe: pintar um vaso e escrever um cartão. Aos que não estavam envolvidos nessas actividades foi pedido que escrevessem e fizessem um desenho sobre uma situação que tivessem vivido com a sua mãe escolhendo como uma das do livro. Todos estavam envolvidos em trabalho, embora fazendo coisas ligeiramente diferentes.

Em todas as salas se respirava trabalho e vontade de aprender. Um consolo ver como funcionam as nossas escolas e o empenho de todos, alunos e professores.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Fábula dos Feijões Cinzentos

Uma metáfora muito interessante e actual sobre o 25 de Abril:

No que dá uma surpresa ... :-)

Ontem estive numa outra sala de aula, de uma professora e de uns meninos que já se tornaram meus amigos. Tinha-lhes prometido que da próxima vez que lá fosse lhes levava uma surpresa. E assim fiz. Procurei um livro digital que os pudesse entusiasmar.

Esta foi a minha segunda opção, porque em primeiro lugar pensei que seria interessante levar-lhe algo sobre o 25 de Abril, mas pus-me a pensar no que tinha sido o 25 de Abril para mim, (há quantos anos já?) e nos difíceis tempos que estamos a viver... Lembrei-me de como muitos daquelas famílias vivem com tantas dificuldades, sem emprego, sem dinheiro para conseguirem alimentar-se convenientemente todos os dias, 12 pessoas a viverem a 2 assoalhadas, ... e tudo o mais que isso significa. Como falar da tortura a crianças que vivem sózinhas na rua e cujas famílias vivem num quotidiano completamente inóspito, à procura de trabalho e pão? ... e a liberdade de associação? ... quando, em muitos trabalhos, quando existem, quase que em regime de escravatura, ou se aceitam as condições dadas, ou nem esse rendimento entra para o orçamento familiar? ... Na 2ª feira tinha lido o artigo de opinião do Francisco Sarsfield Cabral no PÚBLICO - http://abeirario.blogspot.com/2010/04/bomba-relogio-do-capitalismo-francisco.html. Hoje acabei de ler a reportagem da Visão da semana passada sobre os «Retratos da Fome em Portugal» - http://aeiou.visao.pt/retratos-da-fome-em-portugal=f555211 ... e saltaram-me logo à memória as minhas questões de ontem: como falar da liberdade de expressão, da tortura, da guerra colonial, da liberdade de associação num cenário como o que vivemos actualmente? ... Ficam as minhas questões ...e começo a pensar que temos que voltar a falar de todas estas questões, mas de uma outra forma ... mas de que forma?

Fecho este parênteses, para dizer que não tendo muito tempo para me preparar, acabei por decidir levar-lhes uma história que encontrei no blog «Letra Pequena» - http://letrapequenaonline.blogspot.com/ - «A Charada da Bicharada», de Alice Vieira, ilustrado pela Madalena Matoso (Ed. Texto Editores). No entanto, antes de lhes mostrar a prometida surpresa, e como a minha amiga tem vindo a colocar os textos e as fotos no blog a partir de casa (não tem computador na sala de aula e muito menos ligação à Internet), ela pediu-me para lhes mostrar o blog da Escola. Foi por proposta dela que ele foi construído e que outras turmas têm estado a participar no mesmo de forma muito entusiástica. Não se pode imaginar o entusiasmo dos seus alunos e a vontade generalizada de ler em voz alta, para todos ouvirmos, um bocadinho do que lá estava. Claro que foi preciso dar a volta à turma para que cada um pudesse mostrar como já conseguia ler um pedacinho do blog. Houve direito a palmas e parabéns para todos os leitores. Outra festa aconteceu também ao encontrarem as fotos e uma apresentação lá colocada pela professora, com os trabalhos deles, e que eles ainda ainda não tinham visto.

Só depois pudemos passar à esperada "surpresa": ouvir a história d'«A charada da bicharad» - http://static.publico.clix.pt/fotogalerias/letrapequena/acharadadabicharada.aspx. Uma espécie de adivinhas sobre animais, de que os textos não falam, nem se conseguem descortinar, à primeira, nas alegres e fantásticas ilustrações da Madalena Matoso - http://www.slideshare.net/mrvpimenta/publica-madalena-matoso-presentation. Ouvimos uma vez: «Não percebi nada!» «Então vamos ouvir outra vez, um de cada vez!» E logo havia alguém mais perspicaz que depressa descobria de que bicho se estava a falar: ou pelo desenho, ou pelo que se ouvia da Alice Vieira.

A minha amiga teve a ideia de lhes pedir para fazerem desenhos com bichos escondidos, como os do livro, e pediu-lhes também para escreverem um pequeno texto, inspirado nas ideias da escrita criativa que ouvira no Sábado anterior: «Gostava de ser ...[um animal à escolha] ..., para ...»

Tal como acontece com o que se passa à nossa volta, quase nada se consegue logo perceber à primeira ... acontecimentos, pessoas ... muitas vezes nem nós próprios nos conseguimos perceber logo a nós próprios ...

... não será o mesmo com o 25 de Abril? ... com o que ainda falta cumprir desse sonho, dessa esperança? ... e tanto que há ainda por cumprir!! ...

[Actualizado a 25/04/2010]