terça-feira, 18 de novembro de 2014

Nada pode substituir a relação

É bem verdade «não há nada que possa substituir a relação». Mas as técnicas, os métodos ou uma «boa teoria» («Não há nada mais prático, do que uma boa teoria.», K.Lewin), ajudam-nos a perceber melhor o que fazemos e a ficarmos mais disponíveis para a relação.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

«Emprestar»

Num final de um longo dia, com aulas até às 17h30, que andamos a treinar não sejam tão atribulados, assisto a um conflito por causa do empréstimo de uma revista entre duas meninas.

De imediato proponho um "teatro" em que troquem os papéis, a Maria (a dona da revista) vai fazer de Rita (a menina que queria ver a revista da Maria) e a Rita vai fazer de Maria. Cada uma coloca-se de um lado do quadro. Rita (a agora "dona da revista", a fazer de Maria) tem consigo a revista que quer ver e Maria (a fazer de Rita, a colega que quer ver a revista) pede-lhe a revista emprestada. Esta "Maria" de imediato vai entregar a revista a "Rita". Coloco-me ao fundo da sala para dirigir a cena.
Pergunto quem quer fazer o papel de Maria de forma mais parecida com o que ela tinha realmente feito. Logo um voluntário põe o dedo no ar. Quando assume o papel começa por abraçar a revista, mostrando a posse, mas assim que "Rita" lha pede, ele hesita um pouco, mas vai entregar-lha. Pergunto a "Rita" o que sente, responde que queria muito ver a revista e que conseguiu o que queria.

Pergunto se mais alguém ainda quer fazer de outra "Maria", logo uma outra menina se oferece. Esta abraça a revista e vira as costas a "Rita", mesmo quando esta lhe pede a revista emprestada. "Maria" não sai do seu espaço. Quando pergunto a "Rita" o que sente agora, ela, com um tom meio entristecido responde: «Como era bom se a "Maria" me emprestasse a revista ...».

Ao meu lado, Ema sussurra só para mim: «Se emprestamos alguma coisa, começam a saltar as flores como numa chuva.»

Fico maravilhada e peço-lhe que escreva sobre o que tinha estado a ver. Toca e todos querem sair.


P.S. - Este relato é verdadeiro, mas os nomes são fictícios.

Nota: Aqui fica o link para o relato desta situação feito por uma aluna - http://aviagemcomaluz.blogspot.pt/2015/02/a-matilde-aprende-emprestar.html

domingo, 16 de novembro de 2014

«Regresso à barbárie?», por Frei Bento Domingues

In PÚBLICO, 16/11/2014

1. Voltaram, há dias, a interrogar-me, em tom de exame e desafio: se existe um só Deus – segundo o credo monoteísta – porque não se unem numa mesma religião judeus, cristãos e muçulmanos? Presume-se que Deus não possa estar em concorrência consigo mesmo.

Como qualquer cristão, tenho de estar pronto a dar razão da minha esperança, com mansidão e sem arrogância, como recomendou S. Pedro (1Pr 3,15), mas não estou obrigado a ser ingénuo. A pergunta não abriga apenas pouca informação acerca da longa história dos chamados monoteísmos. Recomendo, no entanto, La bibliotheque de Dieu: Coran Evangile, Torah (1). É uma biblioteca escrita e comentada por humanos durante muitos séculos. Nem sempre tem ajudado a pensar e a viver a aventura humana com esperança. A sua leitura fundamentalista foi e continua a ser usada, com demasiada frequência, para matar em nome de Deus. A teologia do diabo exige o recurso permanente ao poder económico, político e religioso (Lc.4,1-13). Os seres humanos sabem que sem poder bélico e o seu comércio, as guerras perderiam o encanto das conquistas.
Dito isto, parece-me um abuso responsabilizar a divindade pelas configurações sociais das religiões, mesmo quando algumas gostem de exibir essa pretensão. Deus não é hindu, judeu, budista, cristão, maometano, baha’i, etc.. Se fosse Ele a ditar os escritos fundadores dessas religiões estaria, de facto, em concorrência consigo mesmo.
As explicações sobre a origem da religião estão confrontadas com um facto evidente: tanto o sentimento religioso como as suas múltiplas expressões têm um passado e um presente nos diversos povos e culturas. Podemos estudar as suas metamorfoses, recomposições e migrações, com ritmos diferentes de continente para continente, de país para país e mesmo dentro da mesma área cultural. Apesar de todos os fluxos de ateísmo, agnosticismo e indiferença religiosa, as previsões do seu apagamento definitivo estão cansadas.
Aquelas religiões que pretendem fundar-se em revelações divinas - e procuram justificá-las a partir dos seus textos fundadores - não têm a vida mais facilitada do que aquelas que as reduzem a fenómenos humanos de relação com o Transcendente. Os dois caminhos não se excluem.

2. Os seres humanos vivem no labirinto dos desejos, conscientes ou inconscientes, confrontados com enigmas e mistérios quer da natureza quer da sociedade. Como não se resignam à simplicidade de animais domesticados, têm de procurar o sentido e as formas culturais de viver como humanos, isto é, com dignidade e em instituições justas. A atitude religiosa desenvolve-se numa atmosfera de atenção “à importância misteriosa de existir” (F. Pessoa) e à necessidade de ter um eixo no qual tudo se religa.
O pluralismo religioso é irredutível, mas se uma religião tiver a pretensão de ser a única verdadeira, divinamente garantida e que fora dela não há salvação, ficam todas sob ameaça ideológica de perseguição religiosa. Consentir na liberdade religiosa seria dar espaço ao erro e à sua nefasta difusão. O raciocínio é simples: apenas a verdade tem direitos; a nossa religião é a única verdadeira; as outras vivem e fazem viver no erro, logo não têm direito a existir.
Na Igreja Católica também se alimentou essa posição assassina ao ignorar que só as pessoas são sujeito de direitos. A Declaração “Dignitatis Humanae” sobre a liberdade religiosa só foi assinada, depois de várias formulações, no dia 7 de Dezembro de 1965, isto é, na conclusão do Concílio Vaticano II! Hoje, é a nossa glória e uma responsabilidade: fora do diálogo inter-religioso não há salvação.
Diálogo não pode ser um faz de conta. É um processo no qual os parceiros vão mudando, passando da hostilidade e da indiferença à mútua hospitalidade. Para derrubar as muralhas construídas ao longo dos séculos e construir pontes entre as religiões é preciso destruir os muros edificados nas mentalidades e nos afectos dos crentes.

3. Paulo VI, na mensagem de Paz para 1971, não podia ser mais incisivo – repete, com uma voz nova que sai da nossa consciência civil, a declaração dos direitos humanos: “todos os homens nascem livres e iguais na dignidade e nos direitos, são todos dotados de razão e de consciência e devem comportar-se, uns com os outros, como irmãos”. A doutrina da civilização chegou até aqui. Não voltemos para trás.
Esta declaração generosa dos Estados, depois de duas guerras estúpidas e monstruosas, ainda não era a voz de todos os povos, mas era o eco do Evangelho: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) e com o método de aplicação da regra de oiro: “faz aos outros o que gostarias que os outros te fizessem” (Mt 7, 12).
Se a doutrina da civilização chegou até aqui, como afirma Paulo VI, voltar atrás não seria regressar à barbárie?
1) Cf. ver. “Lumière & Vie”, nº 255, 2002

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

«A sala de aula do futuro»?!?

A propósito de um artigo da revista Visão (visao.sapo.pt/a-sala-de-aula-do-futuro=f798767?utm_content=2014-10-19&utm_campaign=newsletter&utm_source=newsletter&utm_medium=mail) sobre a sala de aula do futuro, escrevi há uns dias um post no Facebook que aqui partilho agora, melhorado.



Será esta a "sala de aula do futuro" que queremos e precisamos?

A cada dia que passa, refletindo sobre os enormes investimentos que foram feitos no país, no âmbito do Plano Tecnológico da Educação (PTE), face aos gigantescos problemas com que este ano letivo arrancou e ao autoritarismo burocrático das hierarquias, perante os problemas sociais dos nossos alunos e suas famílias com que somos quotidianamente confrontados ... a cada dia que passa, dizia eu, me incomodam mais as visões tecnocêntricas sobre o futuro da escola e sobre a sala de aula do futuro ...
Apesar de parte significativa do meu percurso profissional ter sido realizada no domínio das tecnologias na educação (ou talvez por isso!!), não consigo perceber como o futuro da escola (logo o futuro da sociedade, de todos nós) pode ser completamente, ou melhor, sobretudo, mediado pelas tecnologias ... ou seja, como as tecnologia passam a ser o fulcro, o centro da sala de aula ... Onde fica a relação com a natureza: o tocar, o mexer, o cheirar as plantas, os animais, a terra? ... Que lugar se dá às relações interpessoais, a relação com o outro, o diferente no face-2-face? ... Deixa-se escapar o tocar, o abraçar, o dar a mão? ... Como fazer a regulação dos conflitos, a organização e a construção democrática e conjunta das regras, dos limites, dos valores, sem que se tenha acesso a todos os sinais não verbais de comunicação tão importantes em qualquer encontro entre seres humanos? ... Como expressar adequada, criativa e espontaneamente, as emoções e os sentimentos? ... Que lugar dar à educação artística, nas suas diferentes manifestações? ... Fazer um bolo, uma salada, uma sopa, ou mexer em tintas é completamente diferente de usar o "paint" ou manipular imagens, são outras as emoções, outras as sensações provocadas, e tão importantes que são para o equilíbrio emocional de cada um ... Se os maiores investimentos passam pela tecnologia (investimentos sempre muito dispendiosos), os outros recursos culturais e educativos passam a ser secundarizados, logo há dimensões do ser humano que passam também a ser secundarizadas ... Há já quem muito se preocupe com o demasiado tempo que muitas crianças passam a olhar para o écrã ou a manusear consolas.
Estou a fazer o papel de "advogado do diabo", mas o que estamos a viver nos tempos que correm, cá e pelo mundo fora, das guerras às epidemias e à forma como são tratadas, em minha opinião dever-nos-ia fazer ser mais reflexivos, criteriosos e ambiciosos, em termos humanos, relativamente às salas de "aula do futuro". Que visão temos do «ser humano»? Eu não quero (só) recursos tecnológicos na minha sala de aula - embora me desse imenso jeito ter mais dois ou três computadores. Prefiro ter por perto uma horta, um jardim, espaço para correr, saltar e brincar ... Quero que a minha sala de aula seja um espaço humano, cultural e acolhedor, de curiosidade, aberto, em relação com o que se passa à sua volta, no mundo natural, cultural e social - e para tudo isto, não preciso de muita tecnologia.

sábado, 18 de outubro de 2014

O que pode acontecer? ... :-)




Sexta feira à tarde, tudo cansado. Estávamos a acabar de corrigir uma ficha em conjunto, oralmente. Alguém ao fundo da sala mastigava. Não era hora de lanchar.
Professora (Pr.): - O que estás a mastigar?
Ele (E.) - Pipocas!!
Pr. - Como assim? ... Pipocas confiscadas!! Põe o pacote ali em cima da minha mesa.
Pr., continuando - Nem sabes o mal que as pipocas podem fazer ... Aqui estamos todos numa nave espacial, cada um tem a sua tarefa que tem que ser muito bem cumprida para que o sistema funcione bem, se tu comes pipocas em vez de fazeres a tua tarefa, nem imaginas o que pode acontecer no sistema da nave ... ele pode avariar muito gravemente.
Outro (S., 8 anos), põe o dedo no ar para falar e, muito espontaneamente, acrescenta: - E o que pode acontecer, o maior perigo de todos, é os meninos não aprenderem! ...
:-)

Respiro fundo, de alívio e fico descansada, a mensagem está a passar: é preciso trabalharmos muito para que todos aprendam.

17/10/2014
Na minha sala de aula