quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O valor simbólico de uma lista em papel...

Numa escola que conheço bem, a mudança de turnos ao almoço era uma grande confusão. As professoras, apesar de estarem na sua hora de almoço, decidiram ajudar e tentaram organizar os alunos. Uma delas combinou com os seus alunos (3.º anos de escolaridade), que iriam organizar-se numa fila e que seriam os últimos a entrar: assim evitariam a confusão e saberiam sempre como organizar-se. Chegaram mesmo a fazer uma lista escrita em papel da ordem em que o meninos se deveriam pôr na fila. Assim, não haveria dúvidas, saberiam sempre como organizar-se. À vez, os presidentes (uma das tarefas semanais rotativas na turma) ajudavam a fazer a fila. Esta organização durou umas seis semanas sem qualquer confusão.

Foi na última semana que levaram para o Conselho da turma, quando fazem a avaliação da semana, a questão da entrada para o almoço: não estava a correr bem, já não estavam a fazer a fila como estava combinado. Discutida a razão do que estava a acontecer, chegou-se à conclusão que o problema foi naquela semana os presidentes se terem esquecido muitas vezes de levar a lista para o recreio, para ajudar a fazer a fila. Ou seja, como não havia lista, havia quem dissesse que já não havia fila, que já não era preciso respeitar a ordem combinada ... :-) ... tão bom que é não haver regras ou infringi-las! ... :-)

A autoridade ali era exercida, reificada, por uma lista de papel que não estando presente deixava por isso de ser respeitada.

... ou a importância dos símbolos ou ainda a necessidade (ou não!!) de uma lista de nomes para ajudar na organização de uma fila.


P.S. - É a minha turma, evidentemente.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Nada pode substituir a relação

É bem verdade «não há nada que possa substituir a relação». Mas as técnicas, os métodos ou uma «boa teoria» («Não há nada mais prático, do que uma boa teoria.», K.Lewin), ajudam-nos a perceber melhor o que fazemos e a ficarmos mais disponíveis para a relação.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

«Emprestar»

Num final de um longo dia, com aulas até às 17h30, que andamos a treinar não sejam tão atribulados, assisto a um conflito por causa do empréstimo de uma revista entre duas meninas.

De imediato proponho um "teatro" em que troquem os papéis, a Maria (a dona da revista) vai fazer de Rita (a menina que queria ver a revista da Maria) e a Rita vai fazer de Maria. Cada uma coloca-se de um lado do quadro. Rita (a agora "dona da revista", a fazer de Maria) tem consigo a revista que quer ver e Maria (a fazer de Rita, a colega que quer ver a revista) pede-lhe a revista emprestada. Esta "Maria" de imediato vai entregar a revista a "Rita". Coloco-me ao fundo da sala para dirigir a cena.
Pergunto quem quer fazer o papel de Maria de forma mais parecida com o que ela tinha realmente feito. Logo um voluntário põe o dedo no ar. Quando assume o papel começa por abraçar a revista, mostrando a posse, mas assim que "Rita" lha pede, ele hesita um pouco, mas vai entregar-lha. Pergunto a "Rita" o que sente, responde que queria muito ver a revista e que conseguiu o que queria.

Pergunto se mais alguém ainda quer fazer de outra "Maria", logo uma outra menina se oferece. Esta abraça a revista e vira as costas a "Rita", mesmo quando esta lhe pede a revista emprestada. "Maria" não sai do seu espaço. Quando pergunto a "Rita" o que sente agora, ela, com um tom meio entristecido responde: «Como era bom se a "Maria" me emprestasse a revista ...».

Ao meu lado, Ema sussurra só para mim: «Se emprestamos alguma coisa, começam a saltar as flores como numa chuva.»

Fico maravilhada e peço-lhe que escreva sobre o que tinha estado a ver. Toca e todos querem sair.


P.S. - Este relato é verdadeiro, mas os nomes são fictícios.

Nota: Aqui fica o link para o relato desta situação feito por uma aluna - http://aviagemcomaluz.blogspot.pt/2015/02/a-matilde-aprende-emprestar.html

domingo, 16 de novembro de 2014

«Regresso à barbárie?», por Frei Bento Domingues

In PÚBLICO, 16/11/2014

1. Voltaram, há dias, a interrogar-me, em tom de exame e desafio: se existe um só Deus – segundo o credo monoteísta – porque não se unem numa mesma religião judeus, cristãos e muçulmanos? Presume-se que Deus não possa estar em concorrência consigo mesmo.

Como qualquer cristão, tenho de estar pronto a dar razão da minha esperança, com mansidão e sem arrogância, como recomendou S. Pedro (1Pr 3,15), mas não estou obrigado a ser ingénuo. A pergunta não abriga apenas pouca informação acerca da longa história dos chamados monoteísmos. Recomendo, no entanto, La bibliotheque de Dieu: Coran Evangile, Torah (1). É uma biblioteca escrita e comentada por humanos durante muitos séculos. Nem sempre tem ajudado a pensar e a viver a aventura humana com esperança. A sua leitura fundamentalista foi e continua a ser usada, com demasiada frequência, para matar em nome de Deus. A teologia do diabo exige o recurso permanente ao poder económico, político e religioso (Lc.4,1-13). Os seres humanos sabem que sem poder bélico e o seu comércio, as guerras perderiam o encanto das conquistas.
Dito isto, parece-me um abuso responsabilizar a divindade pelas configurações sociais das religiões, mesmo quando algumas gostem de exibir essa pretensão. Deus não é hindu, judeu, budista, cristão, maometano, baha’i, etc.. Se fosse Ele a ditar os escritos fundadores dessas religiões estaria, de facto, em concorrência consigo mesmo.
As explicações sobre a origem da religião estão confrontadas com um facto evidente: tanto o sentimento religioso como as suas múltiplas expressões têm um passado e um presente nos diversos povos e culturas. Podemos estudar as suas metamorfoses, recomposições e migrações, com ritmos diferentes de continente para continente, de país para país e mesmo dentro da mesma área cultural. Apesar de todos os fluxos de ateísmo, agnosticismo e indiferença religiosa, as previsões do seu apagamento definitivo estão cansadas.
Aquelas religiões que pretendem fundar-se em revelações divinas - e procuram justificá-las a partir dos seus textos fundadores - não têm a vida mais facilitada do que aquelas que as reduzem a fenómenos humanos de relação com o Transcendente. Os dois caminhos não se excluem.

2. Os seres humanos vivem no labirinto dos desejos, conscientes ou inconscientes, confrontados com enigmas e mistérios quer da natureza quer da sociedade. Como não se resignam à simplicidade de animais domesticados, têm de procurar o sentido e as formas culturais de viver como humanos, isto é, com dignidade e em instituições justas. A atitude religiosa desenvolve-se numa atmosfera de atenção “à importância misteriosa de existir” (F. Pessoa) e à necessidade de ter um eixo no qual tudo se religa.
O pluralismo religioso é irredutível, mas se uma religião tiver a pretensão de ser a única verdadeira, divinamente garantida e que fora dela não há salvação, ficam todas sob ameaça ideológica de perseguição religiosa. Consentir na liberdade religiosa seria dar espaço ao erro e à sua nefasta difusão. O raciocínio é simples: apenas a verdade tem direitos; a nossa religião é a única verdadeira; as outras vivem e fazem viver no erro, logo não têm direito a existir.
Na Igreja Católica também se alimentou essa posição assassina ao ignorar que só as pessoas são sujeito de direitos. A Declaração “Dignitatis Humanae” sobre a liberdade religiosa só foi assinada, depois de várias formulações, no dia 7 de Dezembro de 1965, isto é, na conclusão do Concílio Vaticano II! Hoje, é a nossa glória e uma responsabilidade: fora do diálogo inter-religioso não há salvação.
Diálogo não pode ser um faz de conta. É um processo no qual os parceiros vão mudando, passando da hostilidade e da indiferença à mútua hospitalidade. Para derrubar as muralhas construídas ao longo dos séculos e construir pontes entre as religiões é preciso destruir os muros edificados nas mentalidades e nos afectos dos crentes.

3. Paulo VI, na mensagem de Paz para 1971, não podia ser mais incisivo – repete, com uma voz nova que sai da nossa consciência civil, a declaração dos direitos humanos: “todos os homens nascem livres e iguais na dignidade e nos direitos, são todos dotados de razão e de consciência e devem comportar-se, uns com os outros, como irmãos”. A doutrina da civilização chegou até aqui. Não voltemos para trás.
Esta declaração generosa dos Estados, depois de duas guerras estúpidas e monstruosas, ainda não era a voz de todos os povos, mas era o eco do Evangelho: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) e com o método de aplicação da regra de oiro: “faz aos outros o que gostarias que os outros te fizessem” (Mt 7, 12).
Se a doutrina da civilização chegou até aqui, como afirma Paulo VI, voltar atrás não seria regressar à barbárie?
1) Cf. ver. “Lumière & Vie”, nº 255, 2002

segunda-feira, 10 de novembro de 2014