Lamento esta forma tão portuguesa do fechamento ao que vem de fora, ao novo e ao
que é desconhecido. O
Halloween é uma tradição celta e pagã ancestral,
de brincadeira com os medos, com o escuro e a noite, numa altura em que
se celebra a chegada do inverno, dos dias curtos e das longas noites.
Desempenha um papel muito importante no assumir e brincar com os medos -
brincar com os medos pode mesmo ajudar a ultrapassá-los. Está mais
próximo da tradição do Dia dos Mortos. O
Pão por Deus desempenha um
outro papel, o do agradecimento das colheitas de verão e do outono,
associado ao da partilha e à disponibilidade para a abertura aos outros.
Porquê opor as duas tradições e não as integrar no que cada uma tem de
melhor? Gosto desta riqueza multicultural, da abertura, de conhecer
outros costumes e de perceber como foram e são vividos.
O Halloween foi-nos trazidos pela globalização e pelo mercado, como também nos foi trazido pelos emigrantes e pela tradição anglosaxónica.
No que diz respeito ao consumismo trata-se de uma outra questão. Tudo pode ser vivido sem esse lado consumista e gastador.
Há outras formas de fazer e arranjar fatos de bruxas e de monstros, feitos em casa com roupas velhas e trapos, máscaras com tintas e batons que já não se usam (cá em casa não se sairiam muito bem). Tudo simples e sem grandes sofisticações, com os rescursos que se têm mais à mão. Não é preciso mais e é bem mais divertido. Não se trata afinal tudo de pura e saudável brincadeira?
Esta lógica da oposição entre as duas tradições é para mim muito redutora e simplista. Sei que muita gente para se afirmar, precisa de dizer mal do vizinho. É muito triste. É uma fórmula que me cheira a bafio, à mais retrógrada das sacristias (e eu sou
cristã!).
Podemos valorizar as nossas tradições sem recusar outras
tradições diferentes das que conhecemos na nossa infância, antes conhecendo-as e aprendendo com elas o que de melhor têm.
Há sempre
lugar para a abertura.
Há um ano a propósito desta
questão escrevia num comentário, no
Facebook: "Há muito mais em questão no
Halloween do que a preservação das tradições. Celebrar bruxas e bruxos
dá um enorme poder a quem assim se liberta dos ''santinhos da
sacristia'' e aprende a conviver com os seus medos e com os poderes que
esse convívio lhe dá - isto tenho aprendido com os meus alunos. É uma
coisa que na igreja católica muitos tiveram sempre muito medo. E eu
reconheço-me como cristã ... não gosto nem só de bruxas, nem só de
princesas, como não gosto apenas de santinhos, nem de diabinhos... "
Acabo de aprender com uma querida amiga do Brasil, a Graça
Carvalho Campos, que aí também existe uma figura lendária do imaginário brasileiro, associada às
travessuras do dia 31 de outubro, o Saci-pererê. Para saber mais, veja
AQUI.
Para saber mais sobre o Halloween, veja
AQUI e
AQUI.
Para saber mais sobre tradições portuguesas anteriores ao Halloween
AQUI.
Nota: Comecei por escrever este post num comentário no Facebook. Depois transformei-o em post meu, mas como fui recolhendo links e informação sobre este assunto, acabei por o trazer para aqui.