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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Declaração Final do 8º Congresso Internacional da Pró – Inclusão

 

Os participantes no Oitavo Congresso Internacional da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, reunidos no dia 20 de julho de 2024 nas instalações da Escola Superior de Educação de Lisboa, aprovam a seguinte declaração final:
1. Antes de mais – e fazendo jus ao título do Congresso – saúdam o aniversário da revolução do 25 de Abril de 1974, uma revolução serena e humanista que trouxe a Democracia, o Desenvolvimento e a Descolonização aos portugueses, e assim permitiu notáveis avanços no sistema educativo. Podemos dizer, sem exagero, que a Educação Inclusiva é uma conquista da Revolução de 25 de Abril.
2. Congratulam-se com os avanços que a Educação Inclusiva tem tido a nível nacional e internacional. Ainda que com características e avanços diferentes, a Inclusão estabeleceu-se como um valor fundamental e praticamente inquestionável dos diferentes sistemas educativos.
3. A Educação Inclusiva é parte indispensável de uma reforma educacional que tem como fim último a construção de um futuro da humanidade que seja menos desigual, mais fraterno, mais solidário e justo.
4. Sabem que permanecem desafios que precisam de persistência e meios para serem ultrapassados: a formação de professores (tanto inicial como em serviço) precisa de continuar a ser inovada pelas instituições de formação. Sabemos que os recursos de apoio à inclusão precisam de melhorar em qualidade e em quantidade.
5. Não vemos estes desafios como sintoma que a Inclusão é um sonho longe da realidade: vemos, pelo contrário, que o caminho que fizemos até aqui nos permite ver mais lucidamente o que falta e é preciso fazer.
6. Saúdam o esforço que tem sido feito por milhares e milhares de escolas que, mesmo sabendo da impossibilidade de dispor de todos os recursos para responder com qualidade à diversidade, persistem, inovam e rentabilizam o que têm e o que sabem fazer. São todas estas escolas os verdadeiros geradores de futuros justos e de respeito pelos Direitos Humanos.
7. Reunidos no Congresso Internacional de Educação Inclusiva, os participantes reafirmam a sua firme convicção que é não só possível, mas urgente que os sistemas educativos evoluam para acolher todos os alunos e fazer com que o seu percurso de vida seja partilhado, acolhido e feliz. Que é urgente prosseguir o longo caminho que foi feito até aqui.
8. Reafirmamos o nosso compromisso de fazer o melhor que podemos e sabemos para que a Educação de todos e com todos continue a ser estratégia potente para barrar a desigualdade e o populismo e promover uma cultura de justiça e paz.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Uma tarde de mão cheia: quanto vale a autonomia, o sentido do que fazemos e do nosso investimento?

Hoje estou com a "alma cheia" ... a minha sala de aula, com os meus alunos, parecia uma "fábrica de cultura", um espaço de autonomia, de desenvolvimento e de criação cultural. Vou explicar.

Como a realização da prenda para o Dia do Pai estava a correr tão bem (uma das minhas prioridades por estes dias; não posso ainda mostrar as fotografias das realização das prendas, para não desvendar uma surpresa que se vai tecendo na nossa cúmplicidade comum; agora já se pode mostrar AQUI) resolvi propôr-lhe que pintassem com os dedos o papel para a embrulhar. Nestes momentos tenho sempre uma grande preocupação em que esteja tudo muito organizado, para evitar o acidentes evitáveis (mas há sempre os inevitáveis) e eles já sabem que enquanto uns fazem uma coisa, outros fazem outra - no chamado Tempo de Estudo Autónomo (T.E.A., tal como aprendi no Movimento da Escola Moderna; um tempo em que cada um pode escolher o que vai fazer, mas do qual depois tem que dar conta e mostrar o que fez) - vai chegar a vez de todos pintarem (ainda por cima com os dedos, com as mãos nas tintas...), o dito papel de embrulho.


Foi só lançar o desafio. Do lançamento do desafio à descoberta do prazer de usar e sujar as mãos nas tintas foi um pequeno grande passo. A experimentação nunca mais acabava e a certa altura ficava mesmo difícil acabar e passar o lugar a outro. Quem terminava não resistia depois a ir ver o que os outros estavam a fazer e a experimentar.






Até chegámos a falar no "efeito de contágio", de imitação, como tínhamos visto que pode acontecer na exposição "Viral", na semana que passámos na Escola da Ciência Viva.


Mas e o que iam fazendo os restantes meninos da turma?
Uns liam, no Cantinho da leitura, junto da biblioteca da turma.




A certa altura, o responsável da biblioteca da turma, nesta semana (todas as semanas mudamos de tarefas, para todos aprenderem a fazer tudo), veio pedir-me fita-cola. Disse-lhe que a podia ir buscar à minha gaveta.
Quando dei conta a biblioteca estava arrumadinha e cheia de etiquetas, com as seguintes separações (categorias): "Histórias do Mundo" (livros sobre vários países), Conhecimento (livros e enciclopédias para os mais novos), Histórias, lendas e adivinhas (a chamada literatura infantil), os astros e ciências e as "Dúvidas" (aqueles que ele não sabia bem onde colocar). Ainda conversámos um bocadinho se poderiam ser sobre os "seres vivos", se não poderiam ir para a parte do "Conhecimento", mas isso não o satisfez. Lá lhe disse que agora tinha que ir falar sobre o que tinha estado a fazer aos colegas e que esta tinha sido uma excelente ideia.


Fui sendo solicitada aqui e ali. Alguém a certa altura veio perguntar-me quantos meninos só tinham querido a fotografia do grupo, porque estavam a escrever um problema para a turma e precisavam desse dado (estamos na altura de trazerem o dinheiro para pagar as fotografias que um fotógrafo veio fazer à escola). Respondi que deveriam ser 4, mas que não tinha bem a certeza. Elas lá foram continuar o seu problema e a minha preocupação continuava centrada na rotação dos meninos que estavam a pintar o papel de embulho. Estava tudo a correr muito bem.



Outro grupo, sentadas numa outra mesa, acabava o seu projeto sobre a separação dos lixos. Tinham acabado de fazer um pequeno cartaz para pôr junto aos caixotes do lixo da sala e agora iam escrever um pequeno texto para apresentarem à turma e para depois publicarmos nosso blogue.

 

Aproveitaram os folhetos de supermercado e fizeram um cartaz com todas as indicações. Ainda não vi o que escreveram, mas estou muito curiosa.

Outro grupo acabava também um projeto sobre a poluição. Um projeto que nem sei bem como nasceu, porque hoje foi apenas a segunda vez que ouvi falar dele.




Comecei a ficar maravilhada e entusiasmada. Uma destas meninas, só este ano começou a falar e a exprimir-se perante todo o grupo turma e agora já está num grupo a fazer projetos, sem a minha ajuda e de forma tão autónoma?! ... É preciso ver para acreditar. Estou muito curiosa para ver o resultado, mas só vou interferir naquilo em que me for solicitada a ajuda.

E, quando dou por mim, já o responsável pela biblioteca tinha continuado o seu labor e estava a construir um aviso, um pequeno cartaz, para que quem fosse ler livros no cantinho da leitura, não se esquecesse de os arrumar no devido lugar.


Depois estivemos a conversar sobre como ele poderia melhorar o cartaz para que os colegas o vissem e não se esquecessem.


Foi necessário recortar o desenho para colocar numa folha maior, Realçar as letras para se ler bem. Falta agora fazer a moldura para dar um maior destaque ao cartaz e à sua mensagem. Está tudo em marcha, amanhã vai ser acabado.


E tudo isto foi feito apenas numa hora, das 16h30 às 17h30, embora já tivessemos começado antes, mas eu até consegui tirar fotografias e continuar a gerir a pintura do papel de embrulho. Chegámos ao final do dia com onze papeis pintados, mas ainda a faltarem 12, que vão ser a nossa grande prioridade para amanhã. Depois ainda falta embrulhar as prendas.


E haverá ainda alguém que me venha dizer que na última semana de aulas não se faz nada na escola?

P.S. - Devo quase tudo aos meus mestres e quando os começo a enumerar são tantos que quase me perco e me sinto uma privilegiada. Incluo nesse honroso grupo os meus alunos, em todos os locais onde fui dando aulas.

domingo, 14 de junho de 2015

«Recursos nas escolas: os centros e as periferias», por David Rodrigues



«(...) A literatura científica e as posições de organizações internacionais coincidem ao dar como adquirido que o apoio quanto mais cedo for dado, quanto mais precoce, quanto mais preventivo for, melhor. O mesmo tipo de apoio dado numa fase inicial das dificuldades e dado numa fase em que as dificuldades já se encontram instaladas, tem efeitos muito diferentes, isto é, o apoio mais precoce é incomensuravelmente mais proveitoso do que aquele que é dado mais tardiamente. (...) »


Para ler o artigo completo:
http://www.publico.pt/sociedade/noticia/recursos-nas-escolas-os-centros-e-a-periferia-1698756?frm=opi

domingo, 24 de maio de 2015

...adultos que se comportam como bebés ...

Pais competentes, adultos abebezados e um desenvolvimento desadequado da auto-estima ...


... leia este interessante artigo AQUI.

quarta-feira, 25 de março de 2015

“Esta escola já acabou” e é preciso “um pensamento diferente”, António Nóvoa




«O ex-reitor da Universidade de Lisboa, Sampaio da Nóvoa, defendeu que “esta escola” que existe agora “já acabou”, “não fiz sentido no século XXI”.
«Aquilo em que Sampaio da Nóvoa , (...), acredita é numa escola que permita a cada aluno construir o seu próprio percurso educativo, modelos que já estão a ser postos em prática em alguns estabelecimentos, mas, lamentou, com menos expressão na escola pública. (...)»

In Público, 21/03/2015, para ler mais AQUI.

terça-feira, 24 de março de 2015

«A Finlandia quer abandonar o ensino por disciplinas das escolas»

Tenho uma grande desconfiança de grandes reformas educativas que são feitas tendo por base quase exclusivamente o princípio das "competências para o mercado de trabalho" - educar e formar é muito mais do que isso. Não deixa de ser uma grande ousadia fazer uma reforma em que se acaba com as disciplinas e trabalha de outra forma, "por tópicos" ... Como "professora generalista" que sou, por opção - desde muito cedo percebi que a compreensão do ser humano e do mundo em que vive, não pode ser espartilhada em disciplinas, como diz Edgar Morin: "O conhecimento deve ser em simultâneo específico e global". Acompanharei este processo com muito interesse a curto e a médio prazo:




«(...)os jovens finlandeses estão a aprender por tópicos, como a “União Europeia”, que engloba a aprendizagem de economia, história, línguas e geografia. Num ponto de vista mais profissional, um aluno que queira especializar-se em restauração opta por um curso que inclui matemática, línguas (para clientes estrangeiros), competências de escrita e habilidades de comunicação oral.
«Ou seja, nada de uma hora de história, seguida de uma hora de química e de uma hora de matemática. A ideia é eliminar uma das maiores interrogações dos estudantes: “porque tenho de aprender isto?”. No novo modelo finlandês, todos os assuntos leccionados estão interligados e existem motivos práticos para os aprender.
«“Aquilo de que precisamos agora é de um tipo de educação diferente que prepare as pessoas para o mercado de trabalho”, explicou Pasi Silander, responsável pelo desenvolvimento da cidade de Helsínquia, ao jornal The Independent, salientando que com os avanços tecnológicos algumas formas de ensino deixaram de fazer sentido. “Os jovens já usam computadores avançados. No passado, os bancos tinham muitos funcionários a fazer cálculos, mas agora tudo mudou. Temos, portanto, de fazer as mudanças na educação necessárias para a indústria e sociedade modernas.”
(...)»

Para saber mais: http://shifter.pt/2015/03/finlandia-quer-abandonar-o-ensino-de-disciplinas-nas-escolas/

sábado, 28 de fevereiro de 2015

«Pequenos ditadores» (PÚBLICO, 9/4/2012)

Por Paula Torres de Carvalho

Esta temática é cada vez mais pertinente e atual, nunca é de mais voltarmos a ela. Aproveitando um post no Facebook, aqui deixo este artigo com que concordo, já de 2012, mas de uma enorme atualidade. Está em causa a necessidade de limites que, como educadora/professora, aprendi exemplarmente com João dos Santos ...


«Aos consultórios médicos chegam cada vez mais "pequenos ditadores" que os adultos já não conseguem controlar. São filhos de pais que têm medo de ser tiranos. Mas as crianças sem limites não são livres, defendem especialistas

"Não vou". "Não quero". "Só faço se quiser". O problema não é uma criança dizer isto. O problema é quando ela faz precisamente o que diz e os adultos já não têm o poder de a contrariar. Não é uma questão portuguesa mas da generalidade das sociedades ditas desenvolvidas. Os consultórios dos pedopsiquiatras e dos psicólogos estão a encher-se de meninos-rei, pequenos ditadores, crianças sem limites, algumas a caminho da delinquência apresentadas por pais aflitos e referenciadas por professores fartos.

Mais do que um problema, a omnipotência destas crianças é um sinal. Tem a ver com a falta de limites que resulta de uma organização social desregrada, sem tempo para o investimento emocional na criança.

A perspectiva da necessidade de construir "uma cultura da diferença de tempos" defendida pelo filósofo e psicanalista francês Raymond Bénévenque, para quem "é no mundo dos adultos que se deve lutar por um outro futuro das crianças", encontra-se nos discursos do médico pedopsiquiatra Pedro Strecht e das psicanalistas Carmo Sousa Lima e Maria Teresa Sá. Por trás do problema das crianças sem limites, identificam a falta de tempo, a velocidade que muitas vezes não deixa pensar. E a incapacidade de pensar dá lugar à depressão que tem como uma das manifestações a chamada omnipotência infantil.

Em educação tem de haver tempo. "Para haver qualidade, tem que haver quantidade e disponibilidade", considera Pedro Strecht. "Os pais passam muitas horas a trabalhar, muitas crianças chegam a estar 10, 11 horas em jardins de infância e na escola. O reencontro no final do dia acontece numa situação de grande vulnerabilidade emocional com crianças cansadas, com birras, com pouco tempo para cumprir as rotinas e com pais extremamente cansados do trabalho, portanto num ponto de desencontro, de choque e de conflito. Pela falta de tempo e pela culpabilidade dos pais em relação a isso, a permissividade aumentou e aumentou aquilo que vários autores chamam os objectos compensatórios, no que respeita tanto a objectos como à própria relação". A delimitação de regras fica para trás e o que se observa muito hoje - diz Pedro Strecht - é que "temos cada vez mais miúdos que num registo familiar não têm estas balizas e que depois transportam para outros registos, a escola, a sociedade" toda a sua inquietação.

A dificuldade de impor e de aceitar limites paga-se "caro vida fora", adverte Maria Teresa Sá. "Os pais têm medo do poder. Como que sofrem de um excesso de democracia [entre aspas]. Há uma perversão, como na democracia. Muitos pais têm dificuldades com os limites porque têm medo de ser tirânicos. Têm medo de ser como os pais, como os avós ou como o modelo que eles intuíram da sociedade antes deles", diz Carmo Sousa Lima.

E os exemplos sucedem-se: na escola, António, dez anos. A professora anuncia: "Hoje é teste". Ele cruza os braços: "Não faço". E não faz.

Em casa: Rita, nove anos, filha única. A mãe diz-lhe para desligar o computador e ir para a mesa jantar. Ela continua imóvel à frente do ecrã. A mãe repete a ordem. A miúda não se mexe. Já irritada, a mãe aproxima-se e desliga o computador. Rita protesta, grita e volta a ligar o computador. Empurra a mãe, não vai jantar.

No consultório médico, Pedro, oito anos, para o pedopsiquiatra: "Olha, já parti portas, um dia se tu quiseres, também posso partir esta do teu consultório... Se quiseres ver..."

O número de casos "é muito significativo e, sobretudo em relação a anos atrás, é muito mais intenso", diz Pedro Strecht.

A importância da autoridade

O que faltou ou o que tiveram a mais estas crianças para se tornarem assim? Strecht recua até aos primeiros tempos da vida da criança e da relação precoce com os pais. Refere o médico psicanalista inglês Donald Winicott e a sua ideia de "holding" para explicar a necessidade do envolvimento da criança "num círculo de amor e de força" juntando o afecto e o investimento emocional à fixação de limites. "Na própria relação com o bebé, é isso que se faz", explica o pedopsiquiatra. "Quando um bebé está inquieto, a pessoa pega-o ao colo, envolve-o fisicamente. A modelação emocional é feita também à custa de um "holding físico". O que acontece depois é que os miúdos vão integrando progressivamente e de forma cada vez mais autónoma o holding emocional sem ser preciso tanto o holding físico, de uma forma cada vez mais auto-regulada". Quando isso não sucede pode querer dizer "que não houve esse holding físico de delimitação, de força, no "sentido de contenção emocional e verbal."

A explicação para as manifestações de tirania por parte destas crianças passa então pela pergunta acerca do que tiveram elas a mais. Como nota a psicanalista Carmo Sousa Lima, "o excesso de sim perturbou a capacidade das crianças tolerarem o não", mas "é o não que faz valorizar o sim e não o contrário". Depois do período de "maravilha" e de "encantamento" que rodeia o bebé nos primeiros tempos, os pais devem educar os filhos para a realidade, defende. "Há aspectos da realidade de que os pais não podem proteger a criança sob pena de esta enlouquecer ou cair nessa omnipotência que agora é tão corrente aparecer nos consultórios". Há pais, mães que "são de uma ansiedade tal que a criança não pode sair de dentro delas e continua a viver numa espécie de uma bolha protectora, mas que a vai destruindo em termos de autonomia e de identidade", diz, sublinhando que "são os limites que protegem a criança".

Ao contrário do que muitos adultos ainda pensam, "uma criança sem limites não é uma criança livre", diz Teresa Sá, psicanalista e professora na Escola Superior de Educação de Santarém. Que se desfaça a confusão: "Uma criança sem limites é escrava das suas pulsões e não é feliz, vive angustiada". Entregue a si própria "não tem outro guia senão a satisfação imediata". Se quer uma coisa, agarra-a, se não está contente, bate. E se, a curto prazo, isto até pode ser agradável, "paga-se caro, vida fora". Teresa Sá explica como. "Constitui-se como um verdadeiro sofrimento psíquico, visto que o sujeito se encontra na impossibilidade de se frustrar minimamente, de dizer não a si próprio, e não somente de dizer não ao educador". O que correntemente se designa por omnipotência, "não é unicamente a vontade de dominar os outros e de não levar em conta senão o seu próprio desejo, mas, de igual modo, a impotência e a impossibilidade de se dominar a si mesmo, de se limitar", esclarece. "Parecendo dono do mundo, o sujeito está na verdade desmunido, pois não se sente dono do seu próprio mundo interno".

Daí, a importância da autoridade na educação. Carmo Sousa Lima fala antes do exercício de um "bom poder". A capacidade de lidar com os limites "é um poder muito bom, indispensável", diz. "Todos temos uma margem de poder que está em tudo. Podemos falar, comer, amar, mas há pessoas que não podem. Há patologias que não deixam. Por isso, a palavra o poder em si própria é uma palavra muito boa, com um sentido muito profundo". O bom poder "é o poder de dizer "não" na justa medida das coisas que são razoáveis dizer que não. E de dizer que sim naquilo que ajuda a criar uma melhor pessoa".

É a autoridade "exercida pelos educadores (pais, professores, instituição) que permite à criança e ao jovem integrar os interditos fundamentais ligados à socialização", salienta Maria Teresa Sá. "Um adulto que permite tudo não é, para a criança, um adulto que lhe dê segurança".As crianças reclamam, aliás, esses limites quando levam os adultos ao limite (a "passarem-se da cabeça e agirem"). É "como se a criança estivesse a levá-los a colocarem limites". E quando isso não se verifica, "pode acontecer que seja a própria criança ou jovem a colocar o limite, em escalada, geralmente com o corpo, caindo, magoando-se, pondo-se em perigo". Sem autoridade "a criança sentir-se-á insegura, deixada só nas perigosas marés da sua impulsividade e destrutividade, abandonada, negligenciada", nota Maria Teresa Sá.

Pedro Strecht alerta, contudo, para o facto paradoxal de, a par da permissividade, existir um regresso ao autoritarismo" e para a necessidade de isso não acontecer. Face às ideias de que, para enfrentar os problemas da educação é preciso uma "educação espartana" e que "antigamente é que era bom", Strecht diz que "não há nada mais falso". "Sabemos que no campo da saúde mental e da infância, isso é absolutamente mentira". E lembra: "Se hoje as escolas estão cheias de problemas, em 1974 a escolaridade obrigatória limitava-se à quarta classe. E se formos ver, há cem anos não havia meninas nas escolas e a maioria da população escolar andava descalça e isso é que era um problema".

Tem de haver autoridade, sim, mas uma autoridade "protectora", defende o pedopsiquiatra. Que proteja as crianças "dos seus próprios movimentos mais primitivos, mais agressivos", nota Carmo Sousa Lima. Uma autoridade com afecto como defende o psiquiatra Daniel Sampaio. Para promover o desenvolvimento e a autonomia. E "passar de uma navegação à costa para uma navegação à distância", sem a perder de vista, exemplifica Pedro Strecht, deixando claro que se não for feito na infância, este trabalho se tornará muito mais difícil na adolescência.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O Carnaval na escola: ... ou quando se impede as crianças de brincar ao "faz de conta"

As nossas vidas andam mesmo difíceis ... só isso ajuda a compreender as razões que levam pais e mães a arranjarem todas as desculpas possíveis e imaginárias para impedir que os seus filhos e filhas participem num momento de festa, de brincadeira, de alegria, de vida coletiva na escola: os festejos de Carnaval.

A grande maioria das crianças portuguesas passa habitualmente cerca de (pelo menos) 42h30 (sim, quarenta e duas horas e meia) por semana na escola, ou seja, 8h30 (pelo menos) por dia útil da semana. Dessas 42h30 semanais, 5h são passadas em intervalos de 30 minutos (dois por dia) e outras 7h30 são nos recreios de almoço, nos quais se inclui o tempo necessário à refeição.

Se uma criança, entre os 5 e os 10 anos, estiver 14h acordada por dia, isto quer dizer que nos dias úteis ela passa cerca de 60% do tempo em que está desperta na escola.

Mesmo considerando os fins de semana, e partindo do princípio que aí se mantêm o mesmo número de horas em que as crianças estão acordadas, a grande maioria das crianças em idade escolar passa, no mínimo, cerca de 43% da sua vida na escola.

Será a questão da vestimenta uma desculpa razoável para a não participação nestes festejos, quando a maior parte das professoras e professores que conheço, se dispõem a colaborar e ajudar na construção de adereços? Quando existem mesmo outros pais e mães dispostos a colaborar também?

Há quem tenha medo do ridículo, quem tenha medo de se sentir ridicularizado a desfilar mascarado ... Não será esta uma excelente oportunidade para ultrapassar esses medos, num desfile em grupo, em que todos participam mascarados?

O que levará então os pais a impedir que os seus filhos, ou filhas, participem numa festa da escola, no âmbito do espaço de socialização cultural, um espaço de convívio com os amigos e com os adultos que os acompanham no dia a dia, com quem passam tanto tempo das suas vidas? O que os levará a não se organizarem para que os seus filhos participem numa brincadeira, que é uma tradição cultural da sociedade em que vivemos, gastando o menos dinheiro possível?

Será que pensam que a escola é apenas para aprender "a ler, a escrever e a contar", no sentido mais redutor dessas aprendizagens? (há quem pergunte se há faltas nestes dias ... :-) ...)

Para que aprendemos "a ler, a escrever e a contar" se não for para nos integrarmos socialmente, para participarmos na vida da comunidade (seja ela qual for)? Para percebermos melhor o mundo que nos rodeia, seja em que idade for? Nem os atuais currículos oficiais do Ministério da Educação e Ciência, os programas, se limitam já ao "ler, escrever e contar" de outros tempos, de má memória (apesar do enorme retrocesso que as últimas alterações políticas introduzidas apontarem nessa direção). Mesmo que assim fosse, por aquilo que as crianças observam fora da escola, quer nos mass media, quer através do contacto com da vida dos mais velhos e dos adultos, não é mais possível ficarmos, enquanto educadores e enquanto professores, parados no tempo, a treinar, a treinar ...

Sobre o que "leremos, escreveremos ou contaremos" se não aprendermos, desde a mais tenra idade, que podemos escrever com prazer, sobre o que nos dá alegria, sobre o que mais gostamos e amamos, e que isso pode ser partilhado com outros? Escrever, segundo vários autores e investigadores, é dominar um código muitíssimo valorizado socialmente, mesmo no mundo tecnológico em vivemos; é aprender a "ter voz" própria, para se poder expressar, para que outros (os mais próximos e os mais distantes) possam  "ouvir" o que pensamos, o que nos vai na alma: as nossas alegrias, mas também as nossas tristezas, os nossos descontentamentos e as nossas revoltas.

Para além da função social das aprendizagens escolares, como promover "o treino" sem a dimensão afetiva, emocional e social, de partilha e de relação com os outros (neste caso concreto os colegas)? Sem participar nas atividades festivas do grupo a que se pertence todos os dias da semana, tantas horas por semana?

Para além do treino das técnicas da escrita e da leitura, dos algoritmos (das contas), do raciocínio lógico-matemático, há nas aprendizagens escolares outras inegáveis componentes de treino (e aprendizagens) em domínios outros, tão ou mais importantes que os anteriores, como o da compreensão individual da tarefa pedida ou a resolver, a concentração na resolução e execução da tarefa. Todos sabemos o esforço que é necessário fazer para resolver uma tarefa individualmente. Todos sabemos também que estaremos mais dispostos a fazer esse esforço, a vencer os obstáculos inerentes, se soubermos que no final teremos um resultado interessante para partilhar e mostrar aos outros (colegas, professores, pais e comunidade escolar envolvente) - é este a função social da escola, a de ir construindo (literalmente) as aprendizagens escolares num ambiente cultural mais alargado e estimulante. É por isso que há quem diga que, mesmo quando lemos ou escrevemos individualmente, que os outros estão sempre presentes, a nosso lado, quer como autores, quer como audiência, respetivamente - sem qualquer espécie de misticismo ou de esoterismo.

Não se pode negar a dimensão individualista da sociedade ocidental na atualidade, como também não se pode negar a dimensão social e grupal das nossas vidas, da nossa aprendizagem enquanto seres humanos. É indispensável que ambas estejam presentes nos processos educativos e de aprendizagem hoje.

As aprendizagens escolares (incluindo o treino) só ganham toda a sua pertinência quando integradas num contexto cultural mais amplo, no qual se incluem naturalmente os festejos carnavalescos (ou não fizessem eles parte da nossa herança cultural judaico-cristã).

Todos sabemos como os jogos, as brincadeiras do "faz de conta", são essenciais a um desenvolvimento e crescimento (o mais) harmonioso (possível) de todas crianças. O brincar, associado por excelência ao "faz de conta", ainda hoje, nos dá um enorme prazer e alegria, apesar de sermos já adultos autónomos e responsáveis. Não há uma pedagogia para as crianças e outra para os adultos, como não há uma para os cegos e outra para os visuais, como dizia Maria Amália Borges de Medeiros (fundadora do Centro Infantil Hellen Keller): «A pedagogia é só uma!"

Como vão os pais dos alunos que não estiveram presentes nos festejos carnavalescos explicar-lhes as razões que os impediram de participar em "brincadeiras" tão ricas e estimulantes como esta: http://aviagemcomaluz.blogspot.pt/2015/02/carnaval-depois-do-desfile.html. Este é apenas um exemplo, entre muitos outros, que certamente aconteceram por esse país fora.

 

Nota 1: É uma declaração de princípios, de resiliência - resistirei até ao limite das minhas forças em tornar a minha sala de aula num ambiente descontextualizado e acético de "treino", pelo respeito que tenho pelos meus alunos, pelos seus pais e por mim própria.

Nota 2: Fica aqui o link para outros posts sobre a forma como vivi o Carnaval com os meus alunos - http://aviagemcomaluz.blogspot.pt/search/label/Carnaval


sábado, 20 de dezembro de 2014

«A viagem com a Luz ...»






Estamos a levantar lentamente as âncoras e a içar as velas, mas há muito que preparativos para esta "viagem" se iniciaram, por isso os registos estão em atualização ... aqui deixo um pequeno apontamento http://aviagemcomaluz.blogspot.pt/

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O valor simbólico de uma lista em papel...

Numa escola que conheço bem, a mudança de turnos ao almoço era uma grande confusão. As professoras, apesar de estarem na sua hora de almoço, decidiram ajudar e tentaram organizar os alunos. Uma delas combinou com os seus alunos (3.º anos de escolaridade), que iriam organizar-se numa fila e que seriam os últimos a entrar: assim evitariam a confusão e saberiam sempre como organizar-se. Chegaram mesmo a fazer uma lista escrita em papel da ordem em que o meninos se deveriam pôr na fila. Assim, não haveria dúvidas, saberiam sempre como organizar-se. À vez, os presidentes (uma das tarefas semanais rotativas na turma) ajudavam a fazer a fila. Esta organização durou umas seis semanas sem qualquer confusão.

Foi na última semana que levaram para o Conselho da turma, quando fazem a avaliação da semana, a questão da entrada para o almoço: não estava a correr bem, já não estavam a fazer a fila como estava combinado. Discutida a razão do que estava a acontecer, chegou-se à conclusão que o problema foi naquela semana os presidentes se terem esquecido muitas vezes de levar a lista para o recreio, para ajudar a fazer a fila. Ou seja, como não havia lista, havia quem dissesse que já não havia fila, que já não era preciso respeitar a ordem combinada ... :-) ... tão bom que é não haver regras ou infringi-las! ... :-)

A autoridade ali era exercida, reificada, por uma lista de papel que não estando presente deixava por isso de ser respeitada.

... ou a importância dos símbolos ou ainda a necessidade (ou não!!) de uma lista de nomes para ajudar na organização de uma fila.


P.S. - É a minha turma, evidentemente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

«Emprestar»

Num final de um longo dia, com aulas até às 17h30, que andamos a treinar não sejam tão atribulados, assisto a um conflito por causa do empréstimo de uma revista entre duas meninas.

De imediato proponho um "teatro" em que troquem os papéis, a Maria (a dona da revista) vai fazer de Rita (a menina que queria ver a revista da Maria) e a Rita vai fazer de Maria. Cada uma coloca-se de um lado do quadro. Rita (a agora "dona da revista", a fazer de Maria) tem consigo a revista que quer ver e Maria (a fazer de Rita, a colega que quer ver a revista) pede-lhe a revista emprestada. Esta "Maria" de imediato vai entregar a revista a "Rita". Coloco-me ao fundo da sala para dirigir a cena.
Pergunto quem quer fazer o papel de Maria de forma mais parecida com o que ela tinha realmente feito. Logo um voluntário põe o dedo no ar. Quando assume o papel começa por abraçar a revista, mostrando a posse, mas assim que "Rita" lha pede, ele hesita um pouco, mas vai entregar-lha. Pergunto a "Rita" o que sente, responde que queria muito ver a revista e que conseguiu o que queria.

Pergunto se mais alguém ainda quer fazer de outra "Maria", logo uma outra menina se oferece. Esta abraça a revista e vira as costas a "Rita", mesmo quando esta lhe pede a revista emprestada. "Maria" não sai do seu espaço. Quando pergunto a "Rita" o que sente agora, ela, com um tom meio entristecido responde: «Como era bom se a "Maria" me emprestasse a revista ...».

Ao meu lado, Ema sussurra só para mim: «Se emprestamos alguma coisa, começam a saltar as flores como numa chuva.»

Fico maravilhada e peço-lhe que escreva sobre o que tinha estado a ver. Toca e todos querem sair.


P.S. - Este relato é verdadeiro, mas os nomes são fictícios.

Nota: Aqui fica o link para o relato desta situação feito por uma aluna - http://aviagemcomaluz.blogspot.pt/2015/02/a-matilde-aprende-emprestar.html

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Blogue de turma: "uma janela para a sala de aula"

Comunicação apresentada no TIC@Portugal 2014 (Monte da Caparica)

«O Blog de turma: Uma “janela para a sala de aula”» from Margarida Belchior



A maior "EMPRESA" do Mundo
Posso ter defeitos, viver
ansioso e ficar irritado algumas
vezes, mas não me esqueço
de que a minha vida é a maior
empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos
os
desafios, incompreensões e
períodos de crise
.
Ser feliz é deixar de ser vítima
dos problemas e tornar-se num
autor da própria história.
(…)
Fernando Pessoa